sábado, 2 de março de 2013

Da divisão igualitária da estupidez humana

Na abertura do Discurso do Método, Descartes faz uma das afirmações mais irônicas de sua obra - prova de que algum bom humor passava pela mente do árido defensor da racionalidade matemática. (Não sei se cabe explicar a ironia. . . isso seria pressupor pouco de você, caro leitor, além de dar a mim a ingrata tarefa de explicador de piadas, que rivaliza fortemente com tudo que há de mais desagradável na convivência social. . .)

A afirmação é a seguinte:

"Não se encontra no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem."


Pois bem. Ainda que irônica - talvez sarcástica -, a afirmação de Descartes parece se encaixar bem na descrição da autoafirmação de cada um de nós. 

O problema está na contraparte de sua declaração. Em termos lógicos, poder-se-ia dizer que trata-se de uma condição necessária, mas não suficiente, para a compreensão dos juízos de valor dos indivíduos sobre o mundo.

A contraparte da qual eu falo é a que se opõe à afirmação de si: qual seja, a afirmação do outro. 

Em letra de forma: enquanto todos se afirmam dotados suficientemente de bom senso, creditam aos outros sempre o seu oposto: a estupidez - às vezes somente a grupos determinados, mediante uma prévia categorização que não é muito mais do que arbitrária e semi-erudita.


Por paradoxal que seja, o que aqui digo é visto e ouvido frequentemente em círculos de "discussões" em geral, mas mormente naquelas que se ocupam de política e cultura.

E é assim que chego ao fato que desencadeou a produção desse texto.

De fato, são coisas que este diletante observador do comportamento humano já pensava há algum tempo, mas, procrastinador que é, nunca dava a si a decisão de escrever.

O fato é o seguinte: a onda - como tal, efêmera e irrelevante do ponto de vista da totalidade do oceano - de compartilhamentos no Fakebook Facebook de um vídeo de apresentações inesperadas de trechos da Carmina Burana em diferentes locais públicos na Europa (vídeo aqui na sequência); onda esta acompanhada do já batido juízo de valor sobre a cultura brasileira: "enquanto lá ouve-se Orff, aqui é só futebol, bunda e carnaval".

O que vou escrever daqui em diante se divide em duas partes maiores: uma avaliação dessa afirmação tão peculiarmente brasileira, com suas razões e consequências; e uma avaliação do próprio juízo sobre a "intervenção" "artística" em questão, que tirou-me da minha modorra de preguiça.

A típica afirmação brasileira de que no Brasil não há cultura é análoga à afirmação da estupidez "dos outros", posto que o sujeito que avalia assim a (falta de) cultura brasileira determina os conjuntos de modo a excluir-se da massa de incautos.

E todos fazem isso!

De modo que não é difícil inferir daí um padrão de comportamento.

Mas o curioso desse comportamento é a autodepreciação coletiva, com pitadas moralistas ocasionais e   o ostinato curtíssimo da culpa da "política". Claro, a política é a esfera coletiva. . . e a depreciação é coletiva! E ainda mais o fato de essa depreciação caminhar de mãos dadas com uma avaliação de si, individual, que é, no mínimo, superestimada.

A união desses dois fatores contraditórios faz surgir o elogio do não-brasileiro. Quase sempre, o que vem de fora é melhor.

Sejam produtos culturais, comportamento cidadão, sistema político ou o que mais aprouver ao gosto do freguês. Não importa. O que fundamenta o juízo é simplesmente o fato de ser oriundo de outro lugar.

Até mesmo Miami - Miami! - é elevada ao patamar de polo cultural.

Muitos chamam isso de complexo de vira-lata: um efeito da colonização que ainda se faz presente na  relação de um brasileiro com o mundo; na maior parte das vezes, o fulano em questão procura se identificar com o colonizador, para fugir do estigma que acredita macular sua origem.

A mim me parece, inclusive, que isso se torna uma convicção sólida na mente de muitas dessas pessoas. Troçar com o próprio país é parte inextricável da essência do sujeito. E é condição para que ele se livre da humilhante condição de ser. . . brasileiro.

Outra consequência - a mais nefasta, na minha opinião - é a de que passa a ser imperativo desconhecer a própria cultura; tornamos-nos exóticos para nós mesmos, no ápice que pode alcançar a alienação.

E falando em alienação, chegamos ao segundo ponto deste texto: a avaliação daquilo que é louvado pela semicultura daqueles que padecem do complexo de vira-latas.

Aqui tudo começou com a "intervenção" "artística" numa Rodoviária em Viena.

De um ponto de vista estritamente artístico, trata-se de uma apresentação, no mínimo, tosca.

Lugar inapropriado; som inapropriado; repertório . . . suspeito.

Nota-se no vídeo que a grande maioria das pessoas que aparecem fazem parte do "espetáculo"; havia mais gente se apresentando do que gente assistindo; ou seja, um fiasco de público.

E a pouca atenção que o video conseguiu chamar foi devido ao repertório escolhido: o trecho mais famoso da Carmina Burana, de Orff. (Note-se que a falta de informação em relação à obra é tanta que o  título do vídeo é "Carmina Burana" e não "Amor volat undique" e "O Fortuna", nomes dos trechos parcialmente executados.)

Fosse a Catulli Carmina, do mesmo compositor, não teria 5% do resultado. 

Mas isso é apenas um sintoma daquilo que é o objetivo maior deste post: mostrar como a estupidez não é mérito deste ou daquele grupo, mas sim é algo bastante bem partilhado no mundo.

Não individualmente, como o bom senso cartesiano, mas coletivamente, posto que falamos aqui de cultura e não de cognição.

O fato de o tal vídeo ter sido "curtido" e "compartilhado" mundialmente só corrobora a tese. Os comentários (540 até o momento em que escrevo) em várias línguas para as mais de 700 mil visualizações mostram o quão pobre de cultura o mundo está.

Semicultura já é lucro!

A situação é de tal modo periclitante que não duvido do sucesso da globalização!

E como contraprova do que digo aqui, relato a você, cansado e enfastiado leitor, o grande evento cultural que foi a festa de virada de ano aqui em Berlim, de onde escrevo.

E antes, digo: Berlim é tida como uma das mais importantes capitais culturais do mundo. Aqui encontram-se artistas de todos os cantos e de todas as tendências, além de uma programação cultural realmente estruturada e invejável.

Pois bem. As atrações:


  • Adoro
  • Blue
  • Bonnie Tyler
  • Ewig feat. Jeanette B.
  • Glasperlenspiel
  • Hermes House Band
  • Hot Banditoz
  • Jonas Myrin
  • Jürgen Drews
  • Kate Ryan
  • Loona
  • Loreen
  • Oceana
  • Pet Shop Boys
  • R.I.O. feat. U-Jean
  • Stanfour
  • Tacabro

Primeiro fato: tudo foi Playback. Ok. . .

Meu primeiro negrito, para Bonnie Tyler, é só para lembrar ao leitor de que se trata da cantora cujo único "hit" de sucesso - e mesmo assim, que não chega nem de longe a ser arte - foi gravado na década de 1980. E, pasmem!, foi justamente a música que ela "dublou" por aqui: Total eclipse of the heart. 

(O segundo negrito vai para Jürgen Drews, por razões que logo abaixo o leitor descobrirá.)

E adivinhe só quais foram as músicas que mais ensandeceu a plateia?! O "hit" do Teló!

E que não venha nenhum carapálida dizer que isso corrobora o fato de que o Brasil só exporta lixo cultural. Afinal, não exportaria se não existissem compradores. 

E além do Teló, Psy com seu Gangnam Style, cuja coreografia foi ensinada no palco e reproduzida por boa parte dos cerca de um milhão que estavam na comemoração.

Gostou???

O melhor está por vir! Para quem não se convence do baixo nivelamento cultural da atualidade, segue a prova incontestável: o vídeo "Paprika" (Pimentão em alemão) de Jürgen Habermas Drews, para o qual acima chamei a atenção. 

Após assisti-lo, leitor, estou seguro de que se convencerá de que o mal de que padece a cultura não tem fronteiras geográficas. . . 


8 comentários:

  1. uawwwww!!!!!!!!!! Achei, primeiramente, muito interessante o fato de que "supostamente" negamos a tal semicultura ou a ausencia de cultura por que queremos evitar uma certa humilhação submetendo-nos a algo, que, julgamos melhor. Mas para um bom entendedor, poucas palavras bastam para entender que é tudo farinha do mesmo saco....Gostei muito da reflexão!

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    1. Obrigado pelo comentário!

      Olha, não sei não se é tudo, tudo, tudin mesmo, farinha do mesmo saco. . . Mas que tá difícil encontrar alguma coisa que valha a pena, ah, isso sim! rsrsrsrs!
      Forte abraço!

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  2. Grande Rafael Garcia!

    Gostei de sua reflexão. E realmente não gostei do vídeo "Paprika".
    Cara, nem sei mais o que comentar, mas me parece que, apesar da individualidade de cada individuo (e acho que até isso é discutível), as pessoas não são tão diferentes quanto tentam ou julgam ou esperam ou aceitam ser das outras.
    Abraço!

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    1. Fala, caro Unknown!

      Concordo contigo: individualidade é uma coisa bastante questionável. . . Como disse o Vladimir Safatle certa vez, há alguma coisa muito estranha quando 400 mil pessoas compram o mesmo CD da Madonna. (E não é por se tratar da Madonna, não!)
      Pena que você não se identificou aqui, pra gente poder conversar melhor. . .

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  3. Poxa... não seja por isso. A ideia era me identificar como Daniel Botelho, mas parece que estou dentro de um senso comum da área de programação que diz que quando um erro acontece a culpa é sempre do usuário.

    Já ouvi pessoas culparem a malévola criação do capetão chamada Marketing e suas tenebrosas ferramentas de manipulação e ouvi profissionais do ramo de publicidade e propaganda afirmarem que apenas descobrem necessidades ou "ajudam" nós, seres humanos, a descobrirmos o que desejamos em nossos mais íntimos anseios.
    Mas são notáveis as influências externas que sofremos em nossos respectivos "eu" do mundo que nos rodeia (e talvez sejamos apenas um conjunto delas).

    Penso também que a valorização de uma cultura em detrimento a outra talvez só seja possível se não as conhecermos em suas totalidades.Não sei, ao menos a mim essa comparação parece complicadíssima para ser coerente. Cultura é muita coisa.
    É como se, estando inserido em um grupo onde a música comum seja o black metal norueguês, achar que a cultura brasileira é melhor que a norueguesa simplesmente porque ouvem Elis Regina. (sem desmerecer o black metal e alguns de seus personagens).
    Ô tema difícil!

    Abraço!

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    1. Olá, Sr. Anônimo, mais conhecido como Daniel Botelho (por acaso vc é o Daniel Botelho com quem estudei na ETESP?)

      Concordo contigo que não há de se buscar a causa do problema no Marketing. A coisa toda é muito anterior. Mas a indústria cultural é uma realidade inegável hoje e nesse contexto o Marketing tem o seu quinhão de responsabilidade, sobretudo, penso eu, na superficialização absurda dos "produtos" - já que assim eles são mais vendáveis.
      Mas há também o problema (que você mencionou no outro comentário) da falsa individualidade e independência que vivemos. De certa forma, isso é causa e efeito da indústria cultural, que nos pasteuriza à medida em que pasteuriza os produtos no ato de superficializá-los.

      Outra coisa bastante diferente, e penso que muito mais complicada, é a da percepção de outras culturas. Normalmente temos uma dicotomia, que penso ser falsa. Essa dicotomia diz mais ou menos isso: de um lado, temos a perspectiva etnocêntrica que padece da miopia de não conseguir se colocar no lugar do outro e só consegue julgar e valorar as coisas a partir de sua própria medida. Os efeitos disso são devastadores!
      Do outro lado vemos os pró-diversidade que, na ânsia do "respeito" às diversas formas de manifestação cultural, não oferecem meios de criticar os aspectos negativos de uma determinada cultura, como se ela fosse um patrimônio dado, acabado e inalterável.
      Uma compreensão da cultura como uma "energia" não como um "ergon", ou seja, como algo em processo e dinâmico, em vez de algo estacionário e fossilizado, deve permitir-nos não sucumbir ao acriticismo da diversidade ingênua, sem contudo tentar colonizar o outro.

      É mais ou menos isso que tenho em mente. . .

      Não que seja fácil, no "frigir dos ovos", pôr isso em prática.

      Mesmo pq ela nasce com uma contradição consciente, que é a demanda por tolerância e ao mesmo tempo um certo grau de intolerância, dirigido justamente contra a intolerância, compreende???

      Ser contra a intolerância não pode ser uma normativa absoluta. Ela esbarra na necessidade de não ser tolerante contra a intolerância. . .

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  4. Grande Professor Garcia!
    Sou este amigo citado por vossa senhoria que humildemente vos fala e aprende!

    Você colocou muito bem quando escreveu: "Ser contra a intolerância não pode ser uma normativa absoluta. Ela esbarra na necessidade de não ser tolerante contra a intolerância...". E diferir o significado de "não tolerante" de "intolerante".

    Isso tem acontecido (sempre aconteceu) muito em outro assunto ainda mais complicado (que nem quero entrar) que é o da religião. É de certa forma interessante ver como as pessoas tem se manifestado referente a tal assunto (contra/ a favor) com ainda mais fervor nas chamadas redes sociais, onde todo mundo felizmente(?), ou infelizmente(!), tem uma virtual voz ativa na sociedade.

    E aí, aproveitando sua belíssima citação da afirmação de Descartes que me parece permear toda a sociedade: "Não se encontra no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem."

    Grande abraço,
    Daniel Botelho

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    1. Príncipe!!!!

      Saudades de ti!

      Pois é, o assunto mais cabeludo com certeza é o da religião. E em vários aspectos: por exemplo, ela é parte constituinte de praticamente todas as culturas no mundo. Em algumas ela é o pilar fundamental, noutros, tenta ser. E o problema da tolerãncia é particularmente difícil de equacionar com a religião, porque via de regra ela não está aberta à negociação de uma via intermediária de convivência com o diverso. Mas no entanto, as demandas que partem dos setores religiosos da sociedade também são legítimas. Também são. Esse é o problema. Outras demandas - não religiosas - o são da mesma forma.

      Eu não penso que exista uma solução final possível que não passe pelo autoritarismo unilateral - seja proibindo as manifestações religiosas em prol de uma ética estritamente laica, seja submentendo o Estado à autoridade religiosa. E como não sou muito chegado à ideia de submissão a qualquer tipo de totalitarismo, penso que não nos seja possível uma solução, no sentido forte do termo.

      A convivência com o diverso está, do meu ponto de vista, fadada a sempre ser reinscrita na liberdade de cada um de decidir o que fazer em relação ao próximo. Será sempre um trabalho inacabado e dependente de condições das mais precárias. . .

      Penso eu que Descartes não tinha dimensão total do que a crença na posse do bom senso pode causar! Se bem que ele tinha ciência das cruzadas. . . Mas, enfim, a falta de um tiquinho de dúvidas sobre as nossas próprias ações tem consequências nefastas!

      Meu velho, desculpe-me pela demora em responder. A coisa tava corrida por aqui e não queria responder de qualquer jeito a V. Alteza! Obrigado pelos comentários e espero que troquemos mais boas ideias.

      Forte abraço!

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