quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Reflexões Antropofágicas

Durante o longo período em que este diletante blogueiro esteve ausente - por motivo de força maior, claramente - deste sítio, uma série de ideias penduraram-se no trapézio que ele guarda com esmero em sua cachola. 

Agora que as coisas parecem enfim rumar em direção a uma nova calmaria é chegada a hora de externar algumas dessas ervas daninhas - produtos do mais genuíno ócio - que infestam estes carcomidos miolos.

Falarei aqui de uma interessante reflexão que tive ao cear em companhia de uma legítima nativa de Pindorama: o paradoxo envolvido na atividade primordial de um antropófago - qual seja, a de comer pessoas.

Não sei ao certo de que modo a ideia pendurou-se em meu trapézio, mas quando me dei conta, numa farta mesa composta por diversas iguarias tropicais, estava eu a pensar que o sabor daquelas frutas que comíamos durava somente até o tempo em que elas passavam da boca à goela. 

A goela é, assim, o limite do deleite de qualquer alimento que seja. 

Disso podemos inferir que só se saboreia aquilo que ainda não entrou em processo de digestão. Aquilo que nos aguça o paladar é aquilo que ainda resiste à digestão. Ou seja, o interesse que temos pelos alimentos se esvai na medida em que nós os digerimos. 

É por isso que na filosofia helenista dizia-se que o sábio é aquele que sabe aproveitar o momento presente. Ele aproveita o tempo que passa como quem saboreia demoradamente algo que lhe agrada o palato. 

Rapidamente outra ideia se pendurou meio torta no trapézio pra me lembrar de que há uma aproximação linguística entre sabedoria e saborear. Meu dicionário de italiano me dá mangiare como o equivalente a comer, saborear - pra ajudar a ideia, ainda meio torta, a subir direitinho no trapézio.

Dessa aproximação linguística depreende este divagante blogueiro que o sábio - aquele que sabe aproveitar o momento que vive - é aquele que saboreia, que mangia.

Manja, carapálida???

A sabedoria está, portanto, inequivocamente atrelada à capacidade de apreciar aquilo que escolhemos para alimento.

E vale esticar o argumento mais um pouquinho pra lembrar ao já cansado leitor do velho e bom ditado: somos o que comemos.

A nossa versão caraíba deste ditado é deveras interessante: somos o que comemos >> somos o que saboreamos >> somos o que sabemos.

-- Interessante, teria dito minha parda interlocutora do planalto meridional, caso esse lampejo que aqui tento explicitar tivesse sido precocemente gorfado em nosso banquete tropical.

De volta à reflexão.

Se é assim que se dá com a sabedoria e a comilança, o mesmo, veio uma terceira ideia dependurada me dizer, deve se dar com a antropofagia.