sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O ódio contra os estudantes: uma prova de fracasso

É sintomático o tipo de comentário que é postado contra os alunos da USP. E em dois sentidos principais: 1. A falta de conhecimento das pessoas sobre o que se passa lá dentro. 2. O fracasso da universidade em se inserir na sociedade.


Quanto ao primeiro ponto, não vejo que valha pena discutir, pois levar em conta uma reportagem de uma revista tão comprometida com um modelo arcaico elitista brasileiro não dá corpo a uma discussão. Entretanto, a repercussão disso na cabeça de jovens é um triste fato, pois que estes não percebem que os objetivos de uma ideologia são plenamente atingidos no momento em que aqueles que são justamente o alvo de exclusão dessa ideologia passam a defendê-la com vigor e exaltação.



Quanto ao segundo ponto, vale lembrar que a FFLCH é, das unidades da USP, aquela que é menos apreciada pela elite, seja porque seus cursos não são opção para essa elite - visto que não são esses os cursos que têm mais apelo de mercado - seja porque ela é um celeiro cultural sem igual na américa latina - o principal lugar de onde surgiram nossos teóricos mais bem-posicionados nacionalmente nos mais diversos espectros sociais e políticos. Ou seja: uma vez que a FFLCH é preterida por aqueles que buscam carreiras de grande retorno financeiro - o que é refletido no vestibular, que, em toda a unidade, concentra notas de corte das mais baixas da instituição - ela é também o foco de concentração justamente dos não-mimados. É na FFLCH que se encontram mais alunos oriundos de escolas públicas que, engajados desde antes de entrarem na faculdade, continuam e aprofundam-se ainda mais em engajamentos sociais e políticos (entre outros) e lutam por seus direitos na esfera universitária.
Esses alunos não são absolutamente os mimadinhos que a Veja descreve, pois são, na verdade, os que mais ralaram em cursinhos comunitários antes de entrar na faculdade, ou que têm jornada dupla em trabalho e estudo, ao contrário do que se passa na Poli ou na FEA, onde encontramos quase a totalidade de alunos sustentados (por sorte deles) por seus pais e que podem se dedicar integralmente ao curso superior - e, diga-se de passagem, o fazem com afinco digno de nota.
Os comentários sobre o que acontece lá são, no geral, tão desprovidos de conhecimento de causa que no fundo dizem o exato oposto do que acontece: os não-mimados, que lutam pela reforma institucional da USP que é segregacionista desde sua fundação são tachados de maconheiros-rebeldes-sem-causa pela lógica que quer manter as instituições da USP no status quo que sempre favoreceu àqueles que dispõem de melhores condições financeiras,erroneamente associadas à inteligência.
Aqueles que se apressam em dar um veredito desse tipo o fazem com um enorme tiro no pé e nem percebem que o desvio da cobertura jornalística é intencionalmente distorcido para acomodar os moralistas de pijama que pensam que o fato se deu por conta do uso de maconha.
Pregar a pecha de vandalismo também não é novidade, mas devo aqui, a título de testemunho de quem convive na FFLCH há quase uma década, que em todas as manifestações e afins em que participei o zelo com o patrimônio público sempre foi ponto de indiscutível respeito. Isso sempre valeu tanto para a conservação do ambiente e do patrimônio material, quanto para a retidão no uso das verbas disponíveis - por exemplo, no grupo em que eu participava na época de iniciação científica. E muitos desses meus amigos que discutiam nas assembleias todos esses pontos estão lá, envolvidos com o que tem acontecido no momento. Não vejo que eles tenham mudado quanto a isso. E vejo, sim, intenção de manipulação quanto ao vandalismo, como no relato feito por uma aluna da ECA que estava nos arredores da reitoria para cumprir seu papel de jornalista do Jornal do Campus, que segue aqui.

Vale ainda dizer que esses mesmos alunos que são tachados de vagabundos, maconheiros e tudo mais são os mesmos que fazem com que a FFLCH seja a unidade da USP que concentra os melhores cursos na avaliação mundial de cursos: dos 9 cursos da USP que ficaram entre os 200 melhores do mundo, 6 são da FFLCH. 

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Pitaco d'O Caraíba sobre seu próprio texto (tá, preciso de um psicólogo, e daí?!)

Há um texto muito bom publicado por Maurício Caleiro que compara as reações aos alunos da USP e a repercussão odiosa do câncer do Lula. 

No fundo, esse texto não difere do meu, mas é muito mais bem escrito.

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