quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Papagaios e a voz própria

Dedicado aos papagaios, que acham que têm voz própria.


Charge encontrada no Escrevinhador.
Algo semelhante a isso já disse este diletante e repetitivo blogueiro algumas vezes.

Os curiosos podem comprová-lo aqui, aqui ou aqui, até onde alcança a baleada e carcomida memória deste calvo preguiçoso.

Mas há ainda muito a dizer. 

Aqui, cabem algumas palavras sobre o que Hannah Arendt chamou de "pathos do novo", que em tradução livre significa algo como a necessidade de novidades que nos acomete incessantemente.

Já repararam como é comum perguntarmos a alguém, quando o cumprimentamos: "- Quais são as novas?", ou algo que o valha???


Pois é. . . a linguagem torna comum e automático um comportamento que reflete muito o nosso Zeitgeist

É como se estivéssemos fadados a sempre ter algo de novo, para suprirmos, assim, as expectativas de um mundo que avança inexoravelmente rumo ao progresso.

É imperdoável não ter a última versão dos tablets da "épou", mesmo que eles não tenham uma mudança significativa em relação à anterior. Muito menos uma mudança significativa e útil.

E é também curioso como o discurso da utilidade, tão em voga, cai por terra assim tão fácil. . .

Mas não vou falar disso, pois além de diletante, preguiçoso e dotado de memória de peixe, este que vos escreve tem uma incurável tendência à digressão. 

Mal de quem leu Salinger. . . 

Enfim. . .

Num psicologismo da corrente botequesca, poderíamos dizer que isso é sintoma de que as pessoas deslocam para aparelhos tecnológicos o locus de sua individualidade, de sua personalidade. O que equivale a dizer que as pessoas têm uma carência brutal de conhecimento de si mesmas que as impele para fora e as torna alheias a si mesmas - a famosa e denegrida alienação.

E isso faz dessas pessoas nada mais do que reflexo do espírito do tempo em que vivemos. 

Há uma insatisfação enorme com o que é "velho", e nenhuma distinção entre "velho" e "antigo".

Por isso o discurso recorrente da "inovação". 

Pra que inovação, carapálida???

Avanço científico, na esmagadora maioria dos casos, tem sim um valor inegável para a sociedade.

Mas o discurso de inovação é diferente. No fundo, ele é uma fuga de sujeitos que se sentem incompletos e projetam suas carências na objetividade. 

Visivelmente, são dependentes de tecnologia para que possam, por meio dela, alcançar a si mesmos. 

Mas isso, claro está, nunca acontece. Sempre há uma atualização nova; sempre um modelo novo.

E aquele que se identifica com a tecnologia volta a se sentir velho e incompleto.

E não percebe que, cada vez mais, está fora de si mesmo. Como se fossem graus cada vez maiores de alienação, mediados, cada um, pelo grau anterior.

Um efeito patente disso é a superficialidade resultante da incapacidade de que se possa ruminar um assunto tempo suficiente para esgotá-lo. 

Assim como os objetos tecnológicos ficam "velhos" ainda em plena funcionalidade, assim também é com as ideias. 

É necessário ter ideias novas a todo momento; é necessário ter novidades a todo o momento.

E essas novidades, claro está, são marcadas pelo mesmo pathos que produz o discurso da inovação.

"- Inovar é preciso, viver não é preciso" seria um bom e lamentável lema de pseudo e mal-sucedidos empreendedores, para parodiar o Pessoa.

Mas o que não vêem as vítimas dessa patologia é que a busca do novo sem o devido trato do antigo é como reinventar a roda. E isso afasta a possibilidade de inovar.

A alienação impede o novo. 

E impede ideias novas.

Restam os papagaios da inovação, que nem nisso inovam.

O que é inovar - de fato - hoje???

O que é "quebrar paradigmas"???

Tudo isso perdeu sentido com o uso largo e frouxo que fizeram desses conceitos - inovadores. 

Numa imperceptível contradição, esses acometidos de inovacite são, no fundo, ultraconservadores. 

E conservam o que há de pior, que é o preconceito característico de quem não analisa suficientemente a situação e adianta já de saída o diagnóstico.

2 comentários:

  1. A análise que você faz do sujeito é digna de Criminal Minds. Gostei muito.
    É engraçado como ficamos reféns dessas novidades, até de uma liberdade obrigatória, de termos sempre que inovar, quebrar paradigmas e acabamos caindo na mesmice.
    Pra mim um dos melhores posts seus.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado!

    A semelhança com o Criminal Minds é que ambos fazemos parte da mesma corrente botequesca que eu citei no post.

    ResponderExcluir