terça-feira, 13 de setembro de 2011

Os pobres e os pobres, cegos e surdos

Instrutiva comparação feita pela The Economist, publicada no Tijolaço.

Ótimo para aqueles que, por declaração ideológica e torta de princípios, desqualifica qualquer política de ação afirmativa.

Segue o post. O gráfico é excelente.


Nos dias atrás, a revista inglesa The Economist, mostrando com que país cada estado brasileiro, tomado isoladamente, se parecia em matéria de Produto Interno Bruto, renda per capita e população. O resultado, escandaloso, você pode ver clicando no mapa.

Será que diante de contrastes tão gritantes, as nossas elites continuaram achando que este país pode ir em frente sem corrigir o que já não é nem mesmo um desequilíbrio, mas um ato, literalmente, de desamor ao próximo?



Sim, porque há gente que continua achando que o “zé povinho” das regiões atrasadas deste país pode continuar lá, largado, abandonado, sem que isto inviabilize a existência dos próprios centros desenvolvidos do Brasil?

Volta e meia, porém, este sentimento mesquinho e, sobretudo, burro, aflora nas páginas dos nossos jornais.

Outro dia mesmo, a Folha de S. Paulo tratou o fato de a economia nordestina estar crescendo a taxas superiores à média nacional como se isso fosse um simples arranjo político eleitoral do atual governo. Ora, se o Nordeste não crescer mais do que a média, como é que a desigualdade vai diminuir?

E é pouca, ainda, a vantagem que o Nordeste está tendo em relação às outras regiões. Publiquei, outro dia, o cálculo do IPEA de que, mesmo no ritmo atual, a renda média do nordestino só chegará a ser 75% da renda dos habitantes do sudeste no longínquo ano de 2074.

É uma cruel tradução estatística dos versos de João Cabral de Mello Neto, em Morte e Vida Severina, de que a cova é a “terra mais ancha que terás no mundo”.

Pobre gente. Muito mais pobre do que aqueles lá, que sofrem com o atraso e a pobreza. Pobre, porque perdeu a virtude humana do amor.

Pobre e cega, porque não vê que deixar milhões de seres humanos, ali, do seu lado, se degradarem na miséria é, sem nenhuma dúvida, condenarem a si mesmos a viver em um mundo selvagem.

Pobres, cegos e surdos. Porque nem mesmo conseguiu entender a lição poética de Antônio Carlos Jobim, de que é impossível ser feliz sozinho.

2 comentários:

  1. Desta vez não tem o seu pitaco?
    Achei esse post um tanto poético. Interessante o gráfico (apesar de ter que clicar em no mínimo mais 3 links para vê-lo na íntegra), mas ninguém vê que grande parte da população de "El Salvador", "Jamaica", Afeganistão" e afins estão aqui, na "Polônia". Ou que alguns polacos, com menor frequência, estejam nestes países já citados.
    Na minha opinião, não é só no nordeste do país que existe gente miserável. O problema do Brasil vai além de divisões geográficas.

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  2. Eu acredito que o estudo leve em conta o fato de polacos viverem na Guatemala e vice-versa. Justamente isso faz com que SP seja classificado como Polônia e não como Suécia, ou como a Noruega.
    Se dependêssemos do desejo dos habitantes da cidade higiênica, toda essa gente diferenciada iria embora e ficaríamos só com os que se encaixam no perfil que eles aprovam.
    O problema pode não ser geográfico, mas se reflete na geogragia, sim. Nem precisamos sair da Polônia pra ver isso. Basta andarmos desde a cidade higiênica até a cracolândia, poucos quilômetros depois.
    Concordo que o problema seja mais complexo do que isso, mas esses dados pelo menos servem para refutar a ideia de que vivemos num país igualitário, ideia esta que serve pra manter o status quo. . .

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