domingo, 5 de junho de 2011

Vácuo Ideológico

Este humilde e diletante blogueiro já deu seus pitacos em alguns posts sobre o pseudoconteúdo crítico da grande midia, principalmente nas figuras do Reinaldinho Cabeção - personagem do indispensável Tia Carlota e o Zezinho - e da mais perfeita obra-prima da indústria da informação-entretenimento-propaganda, o CQC. 
Notem, leitores, que é indiscutível que as fronteiras que separariam conteúdo opinativo, notícia, entretenimento e "merchan" foram definitivamente rompidas com esse programa. Mais ainda do que com o BBB.

Quer dizer, no caso do BBB, nonca houve a pretensão de informar. Sabe-se de antemão que ali nada se encontrará para além de chulices altamente vendáveis. E não digo isso como se quisesse entrar no coro dos que isentam esse programa de responsabilidade pela propagação de valores questionáveis e pela potencialização de preconceitos mil. 

Mas, se é que dá pra colocar essas coisas numa ordem hierárquica, parece-me que o CQC consegue ser ainda mais perverso do que o BBB. 

E muito disso devido ao fato de que o programa se coloca como a mais nova esperança de esclarecimento político e cidadão ao seu público: os nossos jovens, cultos e sedentos de saber. Isso talvez por contado grande incentivo que temos na sociedade e na educação formal a exercer uma crítica responsável, isenta e não-conformista.

O CQC é apenas a mais nova versão do pseudoesclarecimento que a velha e conhecida Indústria Cultural propala. Ele é um produto elaborado a um nicho de mercado específico: jovens (de todas as idades; o que vale, mesmo, é o intelecto) de classe média (não exatamente no sentidoeconômico; o que vale, novamente, é o intelecto) que estão num certo vácuo ideológico porque não conseguem se desvencilhar de seus próprios preconceitos - políticos, sociais, culturais . . . - e não conseguem elaborar uma crítica consistente àquilo de que discordam e que, no entanto, parece se impor inexoravelmente.

A situação do Brasil mudou, nos últimos anos, tanto política quanto culturalmente, de modo significativo e irrecusável. Para além da apologia ao governo Lula ou algo que o valha, fato é que é visível o incômodo das outrora classes dominantes com a situação presente. 

E é fato que há muitas coisas indiscutivelmente negativas acontecendo. Não tanto quanto as positivas, mas há. E o vácuo se instala aí: não há parâmetros para o estabelecimento de uma crítica em seu sentido mais profundo, nem há a capacidade de reconhecer os aspectos positivos das mudanças, posto que muitos deles vão contra os fundamentos da ideologia de classe média paulista brasileira.

Já disse e repito: aqueles que elogiam o CQC pelo seu conteúdo de criticidade e denúncia certamente ignoram a linha editorial da emissora que o veicula. Na verdade, que o pauta.

É nefasto o efeito desse tipo de programa que não esclarece seu propósito - se é entreter com aquelas piadas óbvias; se é informar, com isenção, a respeito dos fatos marcantes da semana; se é criticar, como fazem os programas opinativos que, para tanto, trazem (ou deveriam trazer) especialistas dos respectivos assuntos; ou se se presta somente a vender produtos destinados ao público jovem de classe média semi-informada e consumista.

No máximo, o que fazem é propagar, sob nova roupagem, preconceitos antigos e valores questionáveis. Prova disso são as "piadas" preconceituosas que seus integrantes contam, em especial o "grande pensador", Danilo Gentili. 

No fim, mais do mesmo: os assim chamados defensores de novos horizontes acabam por repetir o mesmo machismo, o mesmo preconceito de classe, a mesma hipocrisia e o mesmo quietismo. E são contraditórios até mesmo quando o assunto é liberdade de expressão, como mostra a contenda de Marcelo Tas com a blogueira do excelente Escreva, Lola Escreva

Exemplo lamentável. Numa só tacada Tas foi capaz de defender Gentili em seu infeliz comentário sobre os judeus de Higienópolis e de mostrar que não sabe lidar com críticas.

O autoproclamado jornalista progressista mostrou bem não ser nem uma coisa, nem outra.

2 comentários:

  1. Isto me lembrou o comentário, acho que do Gentili , sobre estupro:mulher feia tem que ser estuprada (por ser um favor), existem assuntos que não devem ser tratados de forma alguma como brincadeira, pois essa classe mérdia, com jovens acéfalos e pais pseudo juvenis mais acéfalos ainda, finge ser livre de preconceitos e cheia de moralidade, mas absorve esse tipo de coisa como uma verdade absoluta.Ainda outro dos apresentadores criticou a marcha das vadias, a qual citou em protesto o comentário infeliz do Danilo.

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  2. É isso que venho frisando há tempos. Como diz um amigo, "o careca tucano se acha o paladino da ética". E às vezes ele e seus pupilos manifestam opiniões tão preconceituosas quanto as do Bolsonaro. Realmente, não dá pra saber qual o real propósito do programa.
    Acho que já deu, né? Chega de Tas, Rafinha Bastos e cia. No máximo o Marco Luque fazendo piadinhas no rádio, pra ouvir dentro da lotação (porque perueiro adora essas rádios babacas) ou o Oscar Filho se limitando a escrever crônicas no Guia da Semana.

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