quinta-feira, 16 de junho de 2011

O maior comédia dos últimos tempos

Há uma radical diferença quando mudamos o termo "comédia" de gênero: a comédia é toda obra que usa de recursos satíricos e cômicos para alcançar seus fins estéticos. Vale ainda dizer que é uma das mais eficazes formas de promover a Κάθαρσις (detalhes suficientes para o caso, aqui), segundo Aristóteles. 

Mas para produzir tal efeito, a comédia tem de ser boa. Não servem as "sacadas" pontuais que têm alguns, por assim dizer, comediantes. Nem as inferências óbvias e repetitivas, tipo Zorra Total ou CQC, que servem bem aos QI's de um dígito. A comédia de verdade, é muito mais do que isso.

Enfim. . . quando mudamos o gênero de feminino para masculino, ou seja, quando tiramos de cena a comédia, em seu lugar temos o comédia, que, na linguagem popular, se refere com frequência a qualquer otário, tonto, babaca. . . um típico comédia. 

Eventualmente, o termo é aplicado àqueles que fazem piadas "sem graça", como é o caso daquelas que troçam a partir de preconceitos vários ou injustiças sociais, como é o caso das tantas que conhecemos sobre a inteligência dos portugueses ou das mulheres, da sexualidade dos japoneses etc. 

Recentemente tivemos as "estrelas" do CQC protagonizando "piadas" feitas a partir de tais preconceitos e estereótipos, como é o caso da infeliz piada sobre os judeus da cidade higiênica, ou sobre a gratidão que deveriam ter as mulheres feias pelos seus violentadores.

Isso mostra a ausência total de limites - o velho simancol - desse pessoal em sua avidez por fama. Qualquer coisa vale para não deixar a oportunidade passar. 

E quando as piadas saem assim, sem graça, forçadas. . . elas se tornam exemplos clássicos de . . . comédias. 
Só que não percebem que são eles mesmos as piadas. 

E é nessa toada que acabo de ver uma notícia no Uol que, acredito, é pura piada: Rafael Cortez (outra "estrela" do CQC) lança CD violonístico. 

Não vou cometer o disparate de avaliar seu trabalho antes de ouvir atentamente - coisa que de fato não pretendo fazer -, mas me permito aqui uma reflexão prévia: 
1. Este CD estaria sendo lançado como carona pelo sucesso que seu autor conquistou no campo do "jornalismo", ou tem valor independentemente disso?
2. Não seria, portanto, um típico caso de "jabá"?!

Assim sendo, permito-me não ouvir o CD. Mesmo porque a "palhinha" que o fulano dá, no video do link acima, já me satisfaz: é um trabalho como os demais de Cortez: medíocre. Não vale o tempo gasto ouvindo.

Sei que o post já está ficando grande demais, mas preciso ainda dizer uma última coisa sobre o comédia em questão, que está nítido em sua entrevista. 

Trata-se da boa e velha "superficialidade profunda", conceito marxiano interessante. . .

Vejam, queridos e enfastiados leitores, que o grande Cortez fez um "improviso" a partir de um diálogo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. E que é capaz de citar violonistas clássicos como . . . Segóvia. 

Para quem não conhece, Andrés Segóvia é um violonista espanhol realmente brilhante. É como o Pelé no futebol. E é por isso que é completamente inútil dizer que sua referência no mundo do violão é o Segóvia: é chover no molhado. 

Mas eu vejo que isso é um índice de que nosso comédia não está lá tão atualizado no mundo da música como pretende transparecer. Quando as pessoas citam os autores mais óbvios, elas estão, na verdade, dando o velho truque da "superficialidade profunda", que quer dar a entender que o fulano "manja" de tudo, quando na verdade só lê orelhas de livros. 

A mim, não me surpreende. 

Noutro momento continuarei a tratar dessa superficialidade "cult" que arrotam por aí os leitores de Saramago.  Por ora, recomendo o video abaixo, versão do Faith No More de um clássico dos Bee Gees:




O refrão não poderia ser mais apropriado: the joke was on me. Recomendo, inclusive, como "bonus" ao CD do Sr. Cortez.

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