quarta-feira, 25 de maio de 2011

A perversão do avesso da censura: os "jornais" de Guarulhos

Como vocês, meus escassos e infiéis queridos leitores, devem já ter lido, uma das coisas que me proponho a fazer nesse blog é colocar em pauta a cidade de Guarulhos, em que moro desde minha adolescência e a respeito da qual penso muito durante minhas divagações diletantes de pseudossociólogo.

Guarulhos é uma cidade deveras interessante.

É a segunda cidade mais importante do Estado - em termos econômicos.

E quando digo "termos econômicos" quero dizer que ela tem uma importância que não é nem de longe tangível para os próprios guarulhenses.

A importância vem de um cálculo que, por si só, já é caduco: o tal do PIB.

Já há tempos existem outras formas melhores de se medir o "desenvolvimento" de uma cidade, ou Estado, ou algo que o valha.

Mas nós ficamos ainda com o PIB.

Ok, ok. . .

Não vou me alongar nas divagações econômicas.

Fato é: a importância de Guarulhos. . .  não importa. Não é sentida pelos seus habitantes e, nem de longe, se reflete em desenvolvimento social.

Digo, desenvolvimento da cidade enquanto tal.

Não é???

E isso é também algo constituínte da idiossincrasia de Guarulhos, pois que ela se habituou a essa condição de campo de produção de riqueza que não é sua.

Uma colônia, em termos simples. Uma colônia moderna.

Este diletante blogueiro prefere chamá-la de Província.

E seus habitantes, claro, têm hábitos característicos de provincianos.

E pensamentos provincianos.

E expectativas provincianas.

Com um intelecto desenvolvido na mesma medida.

A cidade não pensa.

A cidade não se pensa.

E isso fica evidente quando lemos os jornais de Guarulhos.

Eu os leio todos os dias. Todos. E todos.

E é pior do que tirar leite de pedra.

Não é novidade nem segredo que Guarulhos não tem sequer um reporter que mereça o título.

Nem uma linha editorial que tenha o mínimo de reflexão acerca da cidade e de seu papel no contexto do Estado e do país.

Muito disso se deve ao fato de que os jornais aqui são duas coisas: uma acúmulo desordenado de propagandas e um amontoado de matérias-pseudo-jornalísticas que de no fundo são propagandas disfarçadas.

Em resumo: é um jornal de propagandas.

E mais nada.

As poucas notícias que tem são superficiais e nem um pouco críticas, o que as torna algo que tangencia a inutilidade absoluta.

E que poderiam muito bem ser lidas em qualquer portal da internet.

Às vezes tenho a impressão de que a tela de entrada do Google tem mais conteúdo.

Só a tela, leitor amigo, sem nenhuma pesquisa.

E os portais de Guarulhos na rede são também primários. Risíveis. Provincianos.

Redes de TV??? Ah, são versões de canais de propaganda que nos fazem querer trocar para qualquer canal evangélico fervoroso sem titubear.

Mas. . . por quê???

A resposta é difícil. Complicada. . .

Ela passa pelo fato de que, como não poderia deixar de ser, os donos de jornais de Guarulhos têm uma mentalidade. . . . provinciana!

O jornal não chega a ser imprensa.

A Folha, a Veja e o Estado também não. Mas deixa pra lá.

Porque aqui a causa é outra.

E por ora eu só consigo explicar de um modo: é a perversão do avesso da censura.

Com calma: se fosse censura, seria porque estamos sob o jugo de um coroné. E de fato tivemos alguns. Um dos jornais pertence a uma família que tem suas origens lá.

Além disso, uma das "TVs" é do nosso "prefeito". Outro índice do jugo "coronelístico"?! Não sei. . .

Não sei porque ainda que eu evite pisar a mesma calçada que o Sr. que hoje ocupa a cadeira do paço, aquela TV não tem audiência e nunca faria frente a uma das emissoras que a tem. Essa é outra característica marcante de nossa (des)organização dos meios de comunicação no Brasil.

Então poderia, em vez de censura coronelística, o seu oposto: é a falta de censura, que daria espaço pra qualquer um dizer o que bem  pensa.

E derrubaria tudo ao nível da opinião.

Nada seria então digno de crédito como fonte de informação.

Mas além disso, chamo aqui de avesso da censura o seu oposto completo(?!?!?): em vez de proibir certas matérias, colocá-las em "pauta".

Tudo o que acontece na cidade, de fato vai ao jornal.

Mas já vai editado.

Assim, não é censura, mas jogo comercial de interesses.

Acontece assim: quando o jornal tem um "furo", em vez de ele publicar e tocar fogo no barraco, colocando todo mundo pra correr e se explicar, ele "conversa" com a parte interessada e, num amouco gesto de genuflexão, consulta-a acerca do referido "furo".

E o resto é o que a gente vê.

Tudo, menos uma notícia.

Nada que nos leve a refletir e a questionar o que se passa na cidade.

Por isso a perversão.

A inversão da censura é a perversão. Porque não há aqui como reivindicar liberdade de expressão: já a temos. Ou ao menos estamos convencidos de a termos.

E é essa convicção que nos impede de tê-la.

Quem já leu o "Discurso sobre a Servidão Voluntária" sabe do que estou falando.

Aqui, nossa imprensa lembra o PMDB nacional: é sempre situação. Não importa quem está no governo, eles estão dentro.

E fora ao mesmo tempo, pra manter a aparência de criticidade e independência.

Aqui, a mídia é noiva de todos. E não casa com ninguém.

Não há uma linha sequer que indisponha nossos jornais com qualquer político ou figurão da cidade.

Afinal, todos eles são anunciantes de um modo ou de outro no jornal.

Teria então nossa mídia alcançado o mais alto grau de imparcialidade jamais sonhado pelo mais convicto positivista??

Teríamos uma perspicácia diplomática ímpar???

Não. Temos apenas obtusidade provinciana.

2 comentários:

  1. Aqui em Franca é igualzinho! Em Ribeirão preto tb. Em Campinas tb. Em Manaus tb e até em Ibitipoca, TAMBéM! Por que será?

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  2. Caro Sr. Anônimo.

    Devo confessar que não tenho detalhes sobre a imprensa em Ibitipoca. Peço desculpas por isso. . .
    Mas creio que a resposta seja simples, e que ela não seja nova: saber é poder.
    Informação virou instrumento de chantagem. A imprensa lucra mais assim do que lucraria ao cumprir seu papel. Todos os sucessivos escândalos que são prontamente abafados pela própria imprensa quando é "o delas" na reta são prova da parcialidade com que as coisas são tratadas.

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