sábado, 28 de maio de 2011

Folha dá exemplo de ativismo gramatical

Em meio às polêmicas em torno do respeito à norma culta, a Folha, sempre pioneira e ativa, mostra que não há mal em não respeitar as regras para o uso de pronomes oblíquos.
Tudo foi de caso pensado, pra mostrar como aqueles que se posicionaram tão radicalmente contra o livro do MEC - e que por coincidência são também leitores fiéis do arauto do jornalismo brasileiro - nem perceberiam o erro.
Afinal, a discussão era por amor à língua; jamais um factóide político.

Supermercado Vegan na terra da Salsicha

Da DW, traduzido pelo INR.


Inaugurado em Dortmund (Alemanha) o primeiro supermercado vegan da Europa
tradução: Denise Gonçalves


Esqueça o salsichão com cerveja. Dortmund agora abriga o único supermercado totalmente vegan da Europa. Oferecendo chocolates, imitação de atum e até comida para cães, a loja espera faturar com este mercado ainda pequeno, mas em franca ascensão.

Famosa por sua indústria de mineração e jeitão operário, Dortmund é uma escolha improvável para o primeiro supermercado vegan da Europa.
"Abrir um supermercado sem nenhum produto de origem animal parece uma coisa maluca", disse o eticista animal e proprietário da loja, Ralf Kalkowski. "Mas as pessoas estão festejando".

O Vegilicious, que abriu no dia 26 de fevereiro, ocupa mais de 100 metros quadrados no centro da cidade, o que, tecnicamente, faz da loja o único supermercado vegan da Europa.

Usando soja, condimentos e óleos para suplementar os ingredientes tradicionalmente de origem animal, as prateleiras estão repleta-as com mais de 1500 produtos. O Vegilicious oferece barras de chocolate, cereais e até imitações de carne, como falsas asas de frango, que usam palitos de cana-de-açúcar para servir de "ossos".

"As pessoas podem dizer que não vivem sem queijo, e nós temos 30 diferentes alternativas para o queijo", disse Kalkowski, que tem como sócia sua esposa Kim. "Você encontra tudo que você acha que está lhe faltando, então não há mais necessidade de comer produtor animais."

Tendo começado com um café e uma loja online, os Kalkowski e seus 16 funcionários hoje atendem de 120 a 150 pessoas por dia. Eles conseguiram até atrair clientes não humanos, vendendo comida vegan para cães e gatos.
"É absurdo resgatar um animal e alimentá-lo com outro animal morto" ele disse.

O que é veganismo?
Os veganos se abstêm de alimentos que contenham qualquer produto de origem animal, incluindo ovos, mel e leite. É isso que os diferencia dos vegetarianos, que só não comem a carne.


"Os veganos acreditam que os animais devem ser deixados em paz, não se trata somente de evitar crueldades", disse Amanda Baker, da Sociedade Vegana do Reino Unido. "Se você cria animais para consumo, você necessariamente os priva de sua liberdade."

Baker afirmou ao Deutsche Welle que muitos machos são mortos ao nascerem porque não podem reproduzir, enquanto as fêmeas são exploradas para reproduzirem artificialmente, o que diminui dramaticamente sua expectativa de vida.
"Por exemplo, a indústria de laticínios e a indústria da carne são a mesma indústria. Não dá para separar uma da outra", ela afirmou.

Além da questão ética, alguns escolhem o veganismo por causa dos problemas com o meio ambiente. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, o setor de criação de animais é responsável por 18% das emissões mundiais de gases do efeito estufa, sendo também uma das maiores causas do desmatamento e poluição da águas.

O veganismo também proporciona benefícios para a saúde, pois o alto consumo de carne está relacionado com doenças cardiovasculares, que são responsáveis por 49% das mortes por ano na Europa.


Kalkowski explicou que muitos dos clientes mais idosos fazem compras no Vegilicious por questões de saúde, pois seus produtos são isentos de colesterol.

Mitos sobre o veganismo
O veganismo foi estigmatizado como caro e excessivo e os veganos são comumente taxados de extremistas por ir além do vegetarianismo, de acordo com Kalkowski, que lamenta as reações de alguns carnívoros frente à abertura do Vegilicious.


Ele disse que na primeira vez que o supermercado apareceu na imprensa, o jornal foi forçado a retirar comentários online que instigavam uma manifestação pró-carne diante de seu estabelecimento.


Ele crê que esses preconceitos estão baseados em mitos, dos quais o maior é a crença de que uma dieta sem a inclusão de carne não fornece ao corpo os nutrientes vitais.

"Você tem todos os nutrientes de que precisa numa dieta estritamente vegetal, exceto pela vitamina B12", Kalkowski explicou, "e isso é algo que suplementamos com um produto que vem da Inglaterra."


Importar produtos da Inglaterra, Estados Unidos e até da Austrália é comum, mas uma parte significativa dos produtos vegan são produzidos na própria região, de acordo com o maior atacadista de produtos vegan da Alemanha, a AVE*.

O proprietário da AVE, Tobias Graf, acredita que a popularidade do veganismo está aumentando, e não somente porque seu negócio está crescendo muito.
"Nos últimos anos, muitos produtos novos se firmaram, muitos foram produzidos e descobertos", ele disse. "Nós mesmos temos crescido 100% por ano nos últimos três anos."


Não são somente os veganos que estão aderindo a essa onda. "Não, eu não sou vegano", explicou um cliente do Vegilicious. "Nem nunca experimentei comida totalmente vegana. Mas acho bom que agora possa experimentar."

Ralf Kalkowski tem esperança de que seu supermercado estimule mais pessoas a comprar produtos sem ingredientes animais, mas a dúvida ainda paira no ar qual é o verdadeiro gosto dos produtos veganos?


"Eles têm gosto muito melhor" ele disse, "porque você come com a consciência tranquila."

* (AVE=Absolute Vegan Empire http://www.absolute-vegan-empire.com/ )

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Interessante, diria uma índia a um caraíba. . .



De cá, não me animo com a notícia a ponto de tomá-la como um presságio de bons tempos vindouros.


Se bem que me alegro como quem terá lá mais uma opção para chegar mais uma vez à evanscente essência de Konsument-Dasein (termo que acabo de cunhar no meu Embromeister-Deutsch).

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A perversão do avesso da censura: os "jornais" de Guarulhos

Como vocês, meus escassos e infiéis queridos leitores, devem já ter lido, uma das coisas que me proponho a fazer nesse blog é colocar em pauta a cidade de Guarulhos, em que moro desde minha adolescência e a respeito da qual penso muito durante minhas divagações diletantes de pseudossociólogo.

Guarulhos é uma cidade deveras interessante.

É a segunda cidade mais importante do Estado - em termos econômicos.

E quando digo "termos econômicos" quero dizer que ela tem uma importância que não é nem de longe tangível para os próprios guarulhenses.

A importância vem de um cálculo que, por si só, já é caduco: o tal do PIB.

Já há tempos existem outras formas melhores de se medir o "desenvolvimento" de uma cidade, ou Estado, ou algo que o valha.

Mas nós ficamos ainda com o PIB.

Ok, ok. . .

Não vou me alongar nas divagações econômicas.

Fato é: a importância de Guarulhos. . .  não importa. Não é sentida pelos seus habitantes e, nem de longe, se reflete em desenvolvimento social.

Digo, desenvolvimento da cidade enquanto tal.

Não é???

E isso é também algo constituínte da idiossincrasia de Guarulhos, pois que ela se habituou a essa condição de campo de produção de riqueza que não é sua.

Uma colônia, em termos simples. Uma colônia moderna.

Este diletante blogueiro prefere chamá-la de Província.

E seus habitantes, claro, têm hábitos característicos de provincianos.

E pensamentos provincianos.

E expectativas provincianas.

Com um intelecto desenvolvido na mesma medida.

A cidade não pensa.

A cidade não se pensa.

E isso fica evidente quando lemos os jornais de Guarulhos.

Eu os leio todos os dias. Todos. E todos.

E é pior do que tirar leite de pedra.

Não é novidade nem segredo que Guarulhos não tem sequer um reporter que mereça o título.

Nem uma linha editorial que tenha o mínimo de reflexão acerca da cidade e de seu papel no contexto do Estado e do país.

Muito disso se deve ao fato de que os jornais aqui são duas coisas: uma acúmulo desordenado de propagandas e um amontoado de matérias-pseudo-jornalísticas que de no fundo são propagandas disfarçadas.

Em resumo: é um jornal de propagandas.

E mais nada.

As poucas notícias que tem são superficiais e nem um pouco críticas, o que as torna algo que tangencia a inutilidade absoluta.

E que poderiam muito bem ser lidas em qualquer portal da internet.

Às vezes tenho a impressão de que a tela de entrada do Google tem mais conteúdo.

Só a tela, leitor amigo, sem nenhuma pesquisa.

E os portais de Guarulhos na rede são também primários. Risíveis. Provincianos.

Redes de TV??? Ah, são versões de canais de propaganda que nos fazem querer trocar para qualquer canal evangélico fervoroso sem titubear.

Mas. . . por quê???

A resposta é difícil. Complicada. . .

Ela passa pelo fato de que, como não poderia deixar de ser, os donos de jornais de Guarulhos têm uma mentalidade. . . . provinciana!

O jornal não chega a ser imprensa.

A Folha, a Veja e o Estado também não. Mas deixa pra lá.

Porque aqui a causa é outra.

E por ora eu só consigo explicar de um modo: é a perversão do avesso da censura.

Com calma: se fosse censura, seria porque estamos sob o jugo de um coroné. E de fato tivemos alguns. Um dos jornais pertence a uma família que tem suas origens lá.

Além disso, uma das "TVs" é do nosso "prefeito". Outro índice do jugo "coronelístico"?! Não sei. . .

Não sei porque ainda que eu evite pisar a mesma calçada que o Sr. que hoje ocupa a cadeira do paço, aquela TV não tem audiência e nunca faria frente a uma das emissoras que a tem. Essa é outra característica marcante de nossa (des)organização dos meios de comunicação no Brasil.

Então poderia, em vez de censura coronelística, o seu oposto: é a falta de censura, que daria espaço pra qualquer um dizer o que bem  pensa.

E derrubaria tudo ao nível da opinião.

Nada seria então digno de crédito como fonte de informação.

Mas além disso, chamo aqui de avesso da censura o seu oposto completo(?!?!?): em vez de proibir certas matérias, colocá-las em "pauta".

Tudo o que acontece na cidade, de fato vai ao jornal.

Mas já vai editado.

Assim, não é censura, mas jogo comercial de interesses.

Acontece assim: quando o jornal tem um "furo", em vez de ele publicar e tocar fogo no barraco, colocando todo mundo pra correr e se explicar, ele "conversa" com a parte interessada e, num amouco gesto de genuflexão, consulta-a acerca do referido "furo".

E o resto é o que a gente vê.

Tudo, menos uma notícia.

Nada que nos leve a refletir e a questionar o que se passa na cidade.

Por isso a perversão.

A inversão da censura é a perversão. Porque não há aqui como reivindicar liberdade de expressão: já a temos. Ou ao menos estamos convencidos de a termos.

E é essa convicção que nos impede de tê-la.

Quem já leu o "Discurso sobre a Servidão Voluntária" sabe do que estou falando.

Aqui, nossa imprensa lembra o PMDB nacional: é sempre situação. Não importa quem está no governo, eles estão dentro.

E fora ao mesmo tempo, pra manter a aparência de criticidade e independência.

Aqui, a mídia é noiva de todos. E não casa com ninguém.

Não há uma linha sequer que indisponha nossos jornais com qualquer político ou figurão da cidade.

Afinal, todos eles são anunciantes de um modo ou de outro no jornal.

Teria então nossa mídia alcançado o mais alto grau de imparcialidade jamais sonhado pelo mais convicto positivista??

Teríamos uma perspicácia diplomática ímpar???

Não. Temos apenas obtusidade provinciana.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Abaixo-assinado pelo metrô na Av. Angélica

Para:Governador do Estado de São Paulo

Nós, abaixo-assinados, vimos por meio deste nos manifestar A FAVOR DA CONSTRUÇÃO DA ESTAÇÃO ANGÉLICA DA LINHA LARANJA DO METRÔ, visto que esta estação irá favorecer a movimentação diária de 25 mil pessoas, conforme estudos baseados na Pesquisa Origem-Destino de 2007, realizada pela Companhia do Metropolitano de São Paulo – Metrô. Somos contrários à decisão do Governo do Estado de São Paulo de cancelar a construção desta estação, amparada em manifestação de apenas 3.500 assinaturas. Em razão disto, exigimos a construção desta estação.
Os signatários 

domingo, 15 de maio de 2011

Gente diferenciada

O caso dos moradores da cidade higiência que ganhou destaque na semana por não quererem que seu refúgio seja usurpado por "gente diferenciada", segundo majstosa definição de uma local, acabou por gerar uma manifestação digna de nota. Foi a versão "diferenciada' do habitual "churrasco na laje". Um dos mais notáveis recém-adeptos da moda é o Presidente Zezinho, como evidencia a foto ao lado, em que o Almirante do Tietê desfruta da iguaria do "povão" - termo que o ex-pensador FHC costuma usar para se referir à "gente diferenciada". 

Segue abaixo texto publicado no excelente Blog da Cidadania, que recomendo fortemente como leitura diária.

Nota: sim, sou vegetariano e, portanto, não sou adepto de churrascos, sejam na laje ou não. Mas o que importa aqui é a manifestação e a causa que está por trás. Além do que, no churrasco da gente diferenciada de ontem foi servido um prato que a mim é válido: chuchu. (O Presidente Zezinho, de fato, tentou assar chuchu algumas vezes, mas, pelo visto acabou chamuscado, pois o Geraldinho do Vale, produtor de picolés do famoso vegetal, é que anda agora no comando dos espetos.)

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Crônica “primária” de um Churrascão diferenciado


Puta que pariu / É a elite/ Mais tosca do Brasil !!
O verso acima era declamado por mais de mil pessoas que se espremiam diante do shopping  no meio da tarde de um sábado nublado – e esfriando – depois do sol que dera palhinha por volta das 12 horas, quando cheguei ao local do Churrascão da Gente Diferenciada e não encontrei ninguém que me parecesse que participaria de algo assim tão “popular”.
No boulevard que precede os corredores tomados por brilhos, luzes, cheiros e sons que embriagam o endinheirado consumidor do asséptico e verdejante bairro paulistano de Higienópolis para depois depená-lo, senhores maduros, gordos e engravatados riem em duas, três mesas, fazendo-me pensar por que estariam vestidos assim num sábado. Outras mesas eram ocupadas por casais, senhoras e até crianças e adolescentes, mas os maduros predominavam.
Olho para um lado, para o outro, e nada. Ninguém diferenciado. Eram todos iguais na cor da pele, nos perfumes fortes, na aparência bem-nutrida, enfim. Não posso negar que, por alguns momentos, senti-me em Paris. Lembrei-me de um café em Saint Germains des Pres…
Pensei na internet. Deve ter informação. Só que não uso esses telefones que, além de tudo, fazem até chamadas e nos quais se pode navegar na rede. Mas estava em um shopping e todo shopping tem lan-houses… Certo? Errado. Nesse não tem. E por que teria, ora, se todos, ali, andam pelos corredores do shopping e nas ruas olhando seus aparelhinhos mágicos?
Contudo, estava na República de Higienópolis e, ali, até os balcões de informações são… diferenciados – ou seriam iguais aos dos países que aquele bairro-estado emula? Enfim, sei que a garota me disse que NÃO havia lan-houses no shopping ou naquela região (?!), mas que a uns MIL metros dali, na rua Maria Antonia, encontraria. E imprimiu o mapa para mim (!).
É um bairro mais igual, entendem? É o contrário do conceito de “diferenciado”.
Fui até lá e, assim que entro no Twitter, o Luis Nassif me manda uma mensagem dizendo que estava ali “com as menininhas” e doido pra comer churrasco, mas não tinha nada. Deixo-lhe uma mensagem pedindo que me ligue. Ele liga e diz que tem compromisso, lamentando não ter encontrado o churrasco.
Penso que está na hora de voltar. Ficarei até duas e meia e, se não aparecer ninguém, vou ao Sujinho comer bisteca de boi e tomar uma cachacinha Seleta, que as mais famosas não cabem no meu bolso. Saio a passos largos, já suando e maldizendo o blazer que vesti no começo da manhã, quando fazia frio e saí de casa para ir ao Churrascão.
Alvíssaras!, tem gente lá na frente falando com a imprensa. Estão ao lado de um carro da RedeTV! Aproximo-me e algumas pessoas vêm falar comigo. Alguns membros do Movimento dos Sem Mídia, leitores que conheço e várias pessoas simpáticas que não conhecia. A maioria, porém, não conheço. Todos ainda muito tímidos. Eu, inclusive.
Fiquei pensando, naquele momento: como faremos isso aqui? Esse pessoal tão… civilizado e fleumático vai se “horrorizar”.
Ando entre os grupos de pessoas conversando. Vai chegando cada vez mais gente. Uma rede de tevê me pára e pede para dar entrevista, como fazia sem parar. Não guardei o nome porque o afluxo crescente de pessoas começou a surpreender. Daqui a pouco chegam a Band e o SBT. Já havia quase umas duzentas pessoas, no local.
Aí a polícia apareceu, bem como o CET. Chegam manifestantes, chega polícia, chega imprensa… E vão chegando.
Mas os grupos de pessoas só dão entrevista e mais entrevista. Ouço um engraçadinho que não quis se misturar dizer que tinha mais jornalista que manifestante. O sangue sobe. Vou ao centro dos manifestantes e grito: Quem quer metrô, aqui?! Aquela massa crescente acorda e brada: Nós! E ficaram esperando eu dizer mais.
As câmeras se voltam e começo a discursar, com as mãos ao lado da boca numa tentativa de amplificar a voz. Surpreendentemente, ecoou forte. A repórter enfia o microfone na cara e começa a fazer perguntas que respondo não para ela, mas para as pessoas, que assoviam, gritam frases bem-humoradas.
Paro de falar e a manifestação amaina. Em alguns segundos, porém, mais alguém começa a falar. Daí chega o humorista Celso Mim com um capacete de obras “reprimindo” a manifestação como se fosse um funcionário do metrô, dando bronca nos manifestantes. Alguns parecem acreditar, de início.
Quando os discursos e palavras de ordem já proliferavam, ouve-se a batucada lá longe, mas avançando pela avenida Higienópolis. Parecia que jogavam confete. Sambavam, cantavam. Um dos cânticos era mais ou menos assim, se me lembro:
Se esta rua fosse minha / Eu mandava ladrilhar / Com Pedrinhas de Brilhante / Para o meu metrô passar
Alguém aparece com churrasco. Agora está cheio de jovens bem-humorados. Maduros, idosos e até crianças diferenciados. Somos muitos. A avenida Higienópolis está tomada. Não passam mais carros. Das imensas sacadas dos prédios, moradores do bairro, imóveis e aparentemente em silêncio, observam a tudo.
Passo a me esgueirar entre a multidão. Encontro gente que conheço e que não conheço e me conhece e eis que, de repente, vejo, diante de mim, dois colunistas da Folha de São Paulo.
São Fernando de Barros e Silva e Sergio Malbergier, aquele que andou escrevendo sobre o direito dos ricos de não quererem metrô na porta deles. Abro-lhes um sorriso como se fossem velhos amigos e, para minha surpresa, percebo que me reconhecem, apesar de jamais termos nos visto pessoalmente.
– Eu conheeeço você – digo a Barros e Silva, em tom jocoso –, e você também – estendo o cumprimento a Malbergier.
Digo que li o texto de Malbergier e que estava “um primor”. Ele sorri, simpático, como se não ligasse para a ironia. Barros e Silva, porém, fecha a cara, aproxima-se e diz:
– Olha, eu respeito você, Eduardo, mas as suas posições são primárias…
Respondo:
– Eu acredito que você pensa assim, mas não são as minhas posições que são primárias, são as suas que são muito avançadas, próprias para Londres, Paris, Amsterdam…
Barros e Silva franze ainda mais o cenho, percebo os dentes trincando, dá-me as costas, empina o queixo e diz, sem se voltar: “Está vendo como você é primário?”. E sai andando.
Comento com Malbergier: “Ele está zangado, né?”. E ele, sorridente: “Está zangado”.
Bato no braço dele, despedindo-me, e dizendo que acho positivo que tenham ido até lá. E caio no meio da galera.
Dali, a manifestação começa a se mover com batucadas e jovens à frente. Avançam em direção à avenida Angélica. Dobram à direita e começam a subi-la. Ocupam as duas pistas. Olho para a avenida e, diante de nós, está vazia de veículos até onde a vista enxerga. Nos prédios em volta as pessoas se debruçam nas janelas e sacadas. Policiais e agentes da CET parecem nervosos…
Peço ao comandante da operação que me diga o número estimado de manifestantes. Ele tasca 600. Digo que ele só pode estar brincando. Havia mais de mil pessoas fácil, ali. Saio meio zangado, batendo o pé, e nem agradeço. Depois reflito que o oficial não teve culpa. Estava cumprindo ordens.
Vejam o que acham
Enfim, foi mágico para este coração cinqüentão de um homem que cresceu em um país em que fazer um ato daquele significava ser espancado e até preso e torturado, quando não assassinado. E o mais lindo foi ver os jovens exigindo direitos, pregando igualdade com calma, bom humor, pacificamente.
Pena que a grande imprensa não contará direito o que aconteceu em São Paulo nesta tarde fria de maio, mas a internet contará a verdade. Fotos, vídeos e relatos, não faltarão. Não carecia, portanto, que me prendesse a isso. Queria passar ao meu leitor as “primárias” impressões deste “primário” blogueiro sobre essa incrível festa da democracia.


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Enquanto isso, na Caverna do Ostracismo, fundos, em que mora a mais nobre estirpe da intelectualidade paulicéica, estava o sempre-fiel Reinaldinho Cabeção a desdenhar do movimento que, numa semana, conseguiu mobilizar mais gente do que seu movimento dos paulistanos cansadinhos. Se tiverem estômago para tanto, vejam seu textículo venal aqui. Trata-se de uma magnífica obra de inversão de causas e efeitos e de desvios argumentativos que, a ele, são usuais. 
Ah, sim, a Caverna do Ostracismo do Reinaldinho fica na cidade higiênica, ao lado daquela do ex-pensador.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Vale a pena reclamar!


Há algumas pessoas que, na jornada, conhecemos e que tornam-se para nós fonte de inspiração.

No meu caso, uma delas é a Eline Garcia (não é minha parente, até onde sabemos. . .), que além de me ensinar francês (ou tentar bravamente. . .) é uma ativista em prol dos direitos dos animais.

E chata como toda ativista deve ser (dois être??? a besoin d'être???).

Hoje recebo um email dela, que tomo a liberdade de retransmitir aqui, mas na ordem cronológica correta.

Deixem comentários. . .


1. O motivo da indignação:
















2. A mensagem da Eline:

Srs.

Escrevo para manifestar meu repúdio à campanha intitulada “Temporada de caça ao estilo”. Peças publicitárias exibindo animais mortos em caça (mesmo que se trate de uma simulação), bem como a exibição das armas de fogo são de extremo mau gosto e transmitem valores que gostaria de ver banidos, como a violência, a crueldade, o desrespeito à vida. A cada dia cresce a consciência sobre o valor da vida animal, seus direitos e o respeito devido a eles, porém os srs. dão este péssimo exemplo à população, alçando a covarde e execrável “caça” à condição de símbolo positivo de status e, pior, usando isto como inspiração para fazer moda. Que valores os senhores acham que estão difundindo?

Solicito que a campanha seja imediatamente encerrada e as peças retiradas do site e de outros veículos onde estejam sendo exibidas.

Eline J Garcia

3. A resposta da empresa

Caro consumidor,

Obrigado pelo seu contato e pela sua critica. Valorizamos o diálogo, as diferentes opiniões e acreditamos na transparência como forma de manter uma boa relação com nossos clientes e com a sociedade em geral. Portanto, gostaria de esclarecer que o tema da caça não foi escolhido com o intuito de fazer qualquer apologia aos maus tratos com animais, tampouco incitar a violência. Nossa intenção foi fazer uma referência de estilo. Mas entendemos que as pessoas têm diferentes visões e interpretações e nos desculpamos por qualquer ofensa que tenhamos cometido. As fotos foram retiradas do site e o catálogo já está fora de circulação. Também gostaria de deixar claro que a Capitollium não comercializa peças com peles de animais silvestres. As estolas de raposa que aparecem na foto são da marca Dior, tem mais de 50 anos, e foram emprestadas de brechós. A Capitollium é uma empresa que respeita o meio ambiente e os direitos dos animais.

Atensiosamente,

Equipe Capitollium

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É, vale a pena reclamar.