sábado, 24 de abril de 2010

Chomsky alerta sobre crescimento da extrema direita nos EUA

Publicado no Vermelho

A direita se alimenta da frustração e avançam os ultra-conservadores como o Tea Party. Latinos e negros são perseguidos, como a Alemanha fascista fez com os judeus, assegura o intelectual.

Por David Brooks, para o La Jornada

O desencanto com o governo e os políticos cresceu a níveis sem precedentes nos últimos tempos de acordo com pesquisas. Crescem a ira, a incerteza, o pessimismo e a desconfiança em Washington, e o fruto dessa frustração popular está sendo colhido por direitistas.

"Nunca vi nada parecido na minha vida", declarou Noam Chomsky. Entrevistado por Chris Hedges para o site Truthdig, acrescentou que o humor do país é aterrador. O nível de ira, frustração e ódio a instituições não está organizado de maneira construtiva. É desviado para fantasias autodestrutivas em referência a expressões populistas da ultra-direita.

O sentimento anti-governamental foi incrementado entre a sociedade, e só 22% diz confiar plenamente no governo, de acordo com pesquisas do Pew Research Center, um dos pontos mais baixos em meio século. Para quase toda medida concebível, os estadunidenses hojes são menos positivos e mais críticos de seu governo. Há uma tormenta perfeita de condições associadas com a desconfiança em relação ao governo: uma economia abismal, um público pessimista e um descontentamento épico com o Congresso e os funcionários eleitos, afirmou Andrew Kohut, presidente do Pew Research Center, ao resumir as conclusões de uma série de pesquisas.

O Pew registrou que apenas 25% tem uma opinião favorável do Congresso — o ponto mais baixo em 50 anos — e 65% expressa uma opinião negativa. Cada vez mais americanos opinam que o governo tem prioridades equivocadas e que isso tem um impacto negativo em suas vidas cotidianas. Cerca de 62% afirma que as políticas do governo beneficiam somente alguns grupos e 56% opina que o governo não faz o suficiente para ajudar o estadunidense médio.

Além disso, se confirma o aumento do sentimento anti governamental entre um segmento da sociedade, ao duplicar-se aqueles que dizem que estão incomodados com o governo federal: de 10% em 2000 a 21% hoje. E 30% percebe que o governo é uma ameaça para sua liberdade pessoal.

O Pew também registrou, em um revés comparado com uma pesquisa de meses atrás, que a maioria desconfia de um maior papel do Estado na economia, com a exceção do setor financeiro, onde uma ampla maioria deseja que o governo regule estritamente as empresas financeiras.

Talvez o setor mais descontente com o governo seja o chamado movimento Tea Party, expressão ultra-conservadora que surgiu há um ano em protesto pelo projeto de estímulo econômico e que cresceu em visibilidade na campanha contra a reforma da saúde proposta pelo governo de Barack Obama. Esse movimento é majoritariamente formado por homens brancos, de 45 anos, que se descrevem como incomodados ou furiosos com Washington.

São considerados como a parte mais dinâmica do movimento conservador, com o propósito de não só deter as propostas de Obama, como também de atacar políticos republicanos que são considerados "não muito" conservadores.

Pesquisas recentes do New York Times/CBS News revelaram que 18% dos americanos se identificam como simpatizantes do Tea Party, se classificam "muito conservadores", são muito pessimistas sobre a direção do país e severamente críticos de Washington e, naturalmente, de Obama. Mais de 90% deles acreditam que o país avança por um caminho equivocado e a mesma porcentagem desaprova o presidente e sua administração política. Já 92% dos pesquisados estimam que Obama leva o país "rumo ao socialismo" (uma opinião compartilhada por mais da metade da população em geral).

Por outro lado, as expressões de ira popular direitista se registram ao reportar-se mais crimes de ódio, um aumento de grupos ultradireitistas radicais, assim como relatórios não oficiais de um crescente número de ameaças de morte contra o presidente. As agências de segurança pública elevaram o estado de alerta pelo que foi chamado de "terrorismo doméstico".

Foram relatados incidentes, vários sob investigação, de atos de intimidação contra congressistas e outros políticos eleitos. No início do mês, mais de 30 governadores receberam cartas de um grupo anti-governamental ultra-conservador que exigia deles sua renúncia em um prazo de 3 dias (embora não houvesse ameaça de violência), o que fez com que autoridades federais advertissem policiais locais que as cartas poderiam provocar comportamento violento. Como estes, existem mais exemplos por todo o país.

A onda de desilusão com o governo e seus governantes provoca preocupação entre alguns políticos que ainda não sabem que impacto isso poderia ter nas eleições legislativas de novembro próximo. Mas para outros o assunto é alarmante.

"É muito similar à Alemanha de Weimar, os paralelos são notáveis". Também aí existe uma desilusão tremenda com o sistema parlamentar, apontou Chomsky na entrevista do Truthdig.

"Os Estados Unidos tem muita sorte em que não tenha surgido uma figura honesta e carismática, já que se isso acontecesse este país estaria em verdadeiros apuros pela frustração, a desilusão e a ira justificada e à ausência de uma resposta coerente", inclui.

Na Alemanha, relembra, o inimigo criado para explicar a crise foi o judeu. "Aqui serão os imigrantes ilegais e os negros. Nos dirão que os homens brancos são uma minoria perseguida. Nos dirão que temos que nos defender e defender a honra da nação. Se exaltará a força militar. Haverá golpes. Isso pode se converter em uma força incontestável. E, se ocorrer, será mais perigosa que a Alemanha nazista. Os Estados Unidos são o poder mundial... não acredito que isto esteja longe de acontecer", diz.

Fonte: La Jornada

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Em tempo: vale lembrar que isso ocorre no Brasil (que vive um apartheid tácito) com relação aos nordestinos. E temos nossa própria direita reacionária que os toma como o problema que assola o sul-maravilha - lembram-se de que Serra colocou a culpa da falência da educação em SP nos "migrantes"? E que, antes disso, um certo "vassourinha" - com grande apoio popular, diga-se de passagem - dava passagens só de ida para esses mesmos "migrantes"??? Há rumores de que Kassab andou fazendo o mesmo. . . A direita cresce em nossas barbas e não vemos. . .

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Nassif: Os bastidores da pesquisa Datafolha


do blog do Nassif, repercutido em Vi o Mundo

Para entender o caso Datafolha

Os bastidores do caso Datafolha começam a aflorar.

Alguns dias antes do lançamento da candidatura José Serra, correu a informação de que o Instituto Sensus divulgaria sua pesquisa no mesmo dia. Poderia ser o anticlímax para Serra.

Dias antes, o Sensus passou a levar tiros da Folha, tentando desqualificar a pesquisa antes de saber o resultado. Um repórter foi incumbido de ouvir os donos do Instituto. Percebendo o jogo, ele informou que, devido às chuvas no Rio, os resultados sairiam após o dia do lançamento da candidatura Serra.

Em vão. Os tiros prosseguiram e a velha mídia começou a deixar pistas pelo caminho. O Datafolha preparou uma pesquisa de emergência, não programada. O Jornal Nacional anunciou que, dali para frente, só divulgaria resultados do IBOPE e do Datafolha.

Saiu o resultado do Datafolha, chamando a atenção geral, a ponto de ser colocado em dúvida pelos próprios jornalistas da Folha. Em vez de jogar com margens de erro em todos os estados, para beneficiar a candidatura Serra, o Datafolha jogou toda a variação no sul. E aí escancarou os erros cometidos, abrindo margem para fortes suspeitas de manipulação da pesquisa.

Foi o mais desgastante episódio na vida do instituto – que conquistou credibilidade nos anos 80 ao fazer o contraponto ao IBOPE.

Belo Monte: a preservação do atraso


Publicado no Vermelho

A suspensão do leilão para a construção da usina de Belo Monte, marcado para 20 de abril, é mais um dos obstáculos que este projeto enfrenta para sua concretização. Há argumentos ambientais, econômicos, e a interferência do imperialismo norte-americano. Mas o governo brasileiro garante que a obra sai: ela é necessária para o desenvolvimento do país.

Por José Carlos Ruy

A suspensão, anunciada ontem (dia 14) do leilão da usina de Belo Monte pela justiça federal do Pará, é o mais recente obstáculo enfrentado no esforço de aproveitamento do potencial hidrelétrico do Rio Xingu. Este ano este esforço completa 35 anos (os primeiros estudos foram feitos em 1975), e as dificuldades parecem aumentar na medida em que a concretização daquele objetivo - a construção da usina - se aproxima.

O projeto ficou arquivado durante as décadas de 1980/1990 devido à crise econômica que levou o país à estagnação e, depois, durante o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, cujo volume de investimentos em infra-estrutura (a construção de usinas hidrelétricas inclusive) foi zero.

No governo Lula, sua retomada enfrentou outros obstáculos. O problema agora não é a falta de recursos, e muito menos a disposição oficial de investir em infra-estrutura, mas a cerrada oposição dos santuaristas do ambientalismo - contrários a qualquer intervenção que afete o meio ambiente - aliada à resistência dos mesmos neoliberais do governo de FHC que, agora, querem impedir a obra.

Há questionamentos de variada natureza. Técnicos e jornalistas ligados à oposição questionam os valores envolvidos na construção da usina. Falava-se inicialmente em 9 bilhões de reais; esse valor cresceu para 19 bilhões e os empreiteiros que concorrem à construção já falam que pode chegar a 25 ou mesmo 30 bilhões de reais.

Há discordância também quanto ao preço da energia que será gerada em Belo Monte. O governo ficou um máximo de 83 reais por MWh, mas os empresários querem mais, falando em até 150 reais. Esse foi o argumento que levou as empreiteiras Odebrecht e Camargo Corrêa a desistir de participar do leilão marcado para abril. Essa saída foi encarada pelo governo como uma tentativa inaceitável de impor preços, e o Palácio do Planalto tomou providências para formar novos consórcios, remarcando o leilão para o dia 20 de abril (o leilão que foi suspenso, dia 14, pela justiça federal de Altamira). E o próprio presidente Lula garantiu que a usina será construída com ou sem as empresas privadas. "Estejam certos que quem apostar que o governo não tem cacife para fazer (...) o governo fará Belo Monte", afirmou.

Lula foi duro contra as ong's que se mobilizam contra a construção da usina. "Nós ficamos 20 anos proibidos de fazer até os estudos de viabilidade para Belo Monte, e agora estão aparecendo ONGs do mundo inteiro para protestar contra a hidrelétrica. Não precisam vir aqui dar palpite. Fizemos revisões do projeto e o lago vai ser um terço do se havia pensado no início", afirmou, disse, garantindo que "ninguém tem mais interesse em defender a Amazônia e os índios do que o próprio Brasil".

Os ambientalistas argumentam que a construção vai secar 100 km do rio Xingu, ameaçando a rica variedade de peixes lá existentes (o Xingu tem três vezes mais tipos de peixe do que toda a Europa) e a área alagada vai submergir terras de duas comunidades indígenas. Dizem ainda que a construção seria desnecessária porque, hoje, o Brasil tem energia elétrica sobrando, que é exportada. E renovam o sempre presente argumento da possibilidade de aproveitamento de energia solar, dos ventos, e outras.

O Ibama, por sua vez - que já emitiu uma licença ambiental para a obra com 40 condicionantes que devem ser cumpridas – desmente a alegação de que haverá 100 km de áreas secas no rio: ela será de apenas 400 metros, diz seu Diretor de Licenciamento, Pedro Bignelli; ele também assegurou que a área alagada não vai atingir diretamente áreas indígenas.

A intensa polêmica ganhou (dia 12) a arrogante e inoportuna adesão do cineasta canadense James Cameron (diretor do filme Avatar), que teve a petulância de, em um ato público contra a construção da Usina realizado em Brasília, ameaçar a soberania nacional sobre a Amazônia dizendo que “o problema de Belo Monte não é só do Brasil” mas do mundo todo, e que vai levar a questão ao Congresso dos EUA. "Vou para Washington para conversar com senadores”, ameaçou, como se lá houvesse alguma autoridade competente para tomar qualquer decisão sobre a construção de uma usina em território brasileiro!

Cameron foi imediatamente criticado pelo vice-presidente José Alencar: é a opinião de uma pessoa. “Se passar da conta, “tem que dar um pito ‘nele’”, disse o vice-presidente. Ele foi diplomático: qualquer opinião dessa "pessoa" sobre questões que dizem respeito estritamente à soberania nacional e à integridade de nosso território são inaceitáveis pois tratam-se de decisões que cabem exclusivamente ao Estado brasileiro.

A decisão da justiça federal de Altamira foi criticada pela governadora do Pará, Ana Júlia Canepa. Ela declarou respeitar as "decisões da Justiça", embora pense que elas possam ser revistas - mesmo porque, lembrou, a licença ambiental foi dada de forma responsável. E lembrou outro ponto essencial no debate: "Não se pode impedir o desenvolvimento do Pará com ações que não são do interesse de maior parte da população", disse.

Belo Monte será, quando concluída, a terceira maior hidrelétrica do mundo, atrás da usina chinesa Três Gargantas e da brasileira/paraguaia Itaipu, que tem 14.000 MW de potência; Belo Monte terá 11.233 MW. Seu lago terá 516 km², e a usina vai gerar o equivalente a 10% do consumo brasileiro.

Ela é considerada fundamental para garantir o fornecimento de energia elétrica para o desenvolvimento do Pará e do nordeste - desenvolvimento que, segundo as previsões, vai ser acelerado daqui para frente. E que poderá ser comprometido se não houver oferta suficiente de energia elétrica.

Uma questão fundamental em relação à construção da usina de Belo Monte é a defesa intransigente da soberania nacional sobre a Amazônia e o repúdio contra personalidades estrangeiras (como o cineasta Cameron) que, a pretexto de um pretenso interesse mundial, ameaçam recorrer a autoridades estrangeiras contra um projeto do governo brasileiro.

Outras dificuldades que este projeto enfrenta decorrem da legitimidade dos interesses ambientais envolvidos, principalmente a preservação dos direitos das populações indígenas e ribeirinhas afetadas, e o respeito à fauna e à flora regionais e à biodiversidade que as caracteriza. Estes são pontos sensíveis que não podem ser deixados de lado, e que são contemplados nas 40 condicionalidades impostas pelo Ibama no licenciamento da obra.

São dificuldades que precisam ser equacionadas juntamente com as imposições do desenvolvimento nacional. Qualquer obra dessa natureza e porte afeta o meio ambiente, e a intervenção do poder público deve ser a de minimizar este prejuízo ambiental e prever a reparação os danos causados principalmente às populações prejudicadas.

A correta combinação entre respeito ao meio ambiente e desenvolvimento econômico é necessária. Ela estabelece a linha tênue que separa as imposições da preservação ambiental da nociva preservação do atraso, que freia e limita o desenvolvimento nacional.

O BRIC e o desafio de construir uma nova ordem mundial

Tirado do Vermelho

Reunidos em Brasília nesta quinta-feira (15), os dirigentes dos países que compõem o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) se defrontam com o desafio de debater, propor e começar a construir uma nova ordem econômica e política mundial num cenário ainda marcado pela mais grave crise do capitalismo desde o pós-guerra, o declínio dos EUA e a mudança da correlação de forças da geopolítica internacional, com a emergência de novos protagonistas de peso.

Por Umberto Martins


BRIC é um acrônimo criado em novembro de 2001 pelo economista Jim O´Neill, do banco Goldman Sachs, que reuniu os quatro países por características comuns como a dimensão territorial, a demografia e o potencial de crescimento. O´Neill estimou, na época, que até o final de 2050 o grupo vai se transformar na principal força da economia mundial.

Interesses convergentes

Inicialmente, o conceito não teve grande repercussão, mas o caminho percorrido pela história desde então parece justificar as previsões de O´Neill, enquanto a necessidade de fortalecer os laços econômicos e políticos entre os países do BRIC levou à formação de um bloco político informal, que realiza agora no Brasil a sua segunda reunião.

Brasil, Rússia, Índia e China detêm 26% do território, 42% da população e 14,5% do PIB mundial. Nos últimos cinco anos, contribuíram com mais de 50% da expansão do PIB mundial, de acordo com estatísticas exibidas por acadêmicos no seminário realizado em Brasília 4ª feira (14) pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA).

Os laços econômicos e políticos no interior do BRIC também foram fortalecidos. Um sinal disto, entre outros, é o fato da China ter se transformado, em 2009, na principal parceira comercial do Brasil, desbancando os EUA. As dessemelhanças e assimetrias, assim como a proeminência chinesa, também são notáveis, embora aparentemente não constituam um obstáculo intransponível à unidade política.

Proeminência chinesa

De acordo com informações do pesquisador Zhang Yuyan, da Academia de Ciências chinesa, apresentados no seminário do IPEA, a China, sozinha, responde por 7,1% do PIB mundial e se os países do BRIC realizam 14,5% das exportações mundiais, nada menos que 9,1% são responsabilidade daquela nação asiática, que lidera o ranking das vendas internacionais e vem também ocupando fatia crescente do comércio com Brasil, Rússia e Índia.

Todavia, os interesses comuns são consideráveis e cresceram no rastro da crise mundial. O BRIC sofreu menos os impactos da recessão americana e se recuperou mais rapidamente, puxando a economia internacional para o leito do desenvolvimento. Isto fortaleceu politicamente o “bloco”.

Conforme afirmou o diretor do Instituto de Estudos da Ásia e Pacífico, Li Xiangyang, durante o seminário, enquanto as potências europeias, o Japão e os EUA continuam atolados na crise, com pálidos sinais de recuperação e lidando com assombrosos déficits fiscais, os problemas dos países do BRIC decorrem do crescimento, que alguns consideram excessivo, pressões inflacionárias e fluxo de capitais estrangeiros especulativos.

Ordem mundial caducou

A crise evidenciou o esgotamento da ordem capitalista mundial, herdada do pós-guerra e ancorada na supremacia do dólar, e acentuou a necessidade de uma nova ordem, em harmonia com o desenvolvimento desigual, especialmente da China, e a mudança consequente da correlação de forças no plano econômico.

O que está em foco, de acordo com o ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, é “saber se algumas nações continuarão a se achar superiores e, portanto, com mais direito ou não”. Na mesma linha, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ponderou que a intenção não é formar uma “aristocracia dos emergentes”, mas dar voz e poder aos mais pobres.

“Essa perspectiva”, observa o presidente do IPEA, Marcio Polchmann, “nos coloca numa posição estratégica para fazer proposições que estejam em sintonia com os desafios mundiais. São problemas comuns, como é o caso do meio ambiente, a mudança do perfil de consumo nos países, a questão monetária e a governança global".

Questão nuclear

“Estamos num processo de rearticulação do sistema político e econômico internacional e, nesse processo ou as regras continuarão a privilegiar alguns países ou teremos uma situação de acordo com a dimensão das nossas sociedades”, salientou Pinheiro Guimarães. Entre os problemas candentes destaca-se os da chamada questão nuclear.

“Precisamos saber quem controlará o processo nuclear”, disse o ministro de Assuntos Estratégicos. “No fundo há uma disputa tecnológica e científica entre países”. A tentativa das potências ocidentais de impedir o desenvolvimento da tecnologia nuclear no Irã, Coreia do Norte e outros países reflete isto.

O Brasil adotou uma posição firme a este respeito, apesar da pressão dos EUA, rejeitando sanções contra o país persa e pregando o diálogo e, a julgar pelo ministro Celso Amorim, a posição do Brasil se aproxima da que é defendida hoje pela China, apesar da mídia americana ter divulgado a falsa versão de que os dirigentes chineses estão afinados com a tática do imperialismo americano, de impor novas sanções aos iranianos.

Substituição do dólar

Outro dilema avaliado pelo BRIC é de um novo Sistema Monetário Internacional (SMI), que passa pela substituição do padrão dólar como moeda internacional. Isto não vai ser resolvido a curto prazo, mas iniciativas embrionárias neste sentido como a diversificação das reservas (ainda atreladas ao dólar) e experiências de trocas comerciais com moedas locais na América Latina e na Ásia.

“O atual sistema monetário internacional é desfavorável aos países em desenvolvimento”, comentou Li Yang, que também defendeu mudanças no FMI e, segundo o jornal Valor (15-4), foi apoiado por Marcio Polchmann, que preconizou uma aliança entre os países do BRIC para “um novo padrão de consumo e produção”. O Brasil e a Rússia também estão defendendo transações comerciais entre os países do grupo com base nas moedas próprias, descartando o dólar.

Ao lado da reunião do BRIC, Brasília também foi palco de uma outra importante reunião, a 4ª Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo do IBAS (grupo composto por Índia, Brasil e África do Sul), cujo documento final (Declaração de Brasília) defende uma reforma urgente da ONU e a conclusão da Rodada Doha no âmbito da Organização Mundial do Comércio.

As duas reuniões (do BRIC e do IBAS) apontam a mesma necessidade de uma reformulação urgente e ampla da ordem econômica e política internacional, que ficou ainda mais caduca após o estouro da crise mundial do capitalismo nos EUA.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Acordo militar Brasil-EUA será submetido ao Congresso


publicado no Vi o Mundo

por Conceição Lemes

Brasil e Estados Unidos assinaram na segunda-feira, 12 de abril, acordo de cooperação militar. Ele não contempla a instalação de bases militares estadunidenses no Brasil nem o uso de nenhuma base brasileira por parte das Forças Armadas americanas, ao contrário do que a imprensa internacional divulgou a partir de “notícias” veiculadas em O Globo e O Estado de S. Paulo.

Confirmou o que Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, havia dito em matéria publicada pelo Viomundo.

Porém, o acordo continua a sofrer questionamentos, como mostra este artigo que o Viomundo republicou. Por isso, hoje à tarde entrevistei uma fonte importante do governo brasileiro, que nos revelou:

1. O acordo de cooperação militar Brasil-EUA terá de ser discutido e aprovado pelo Congresso Nacional. Depois, irá à sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

2. Pelo Brasil, o acordo foi assinado pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. Porém, não foi elaborado exclusivamente pelo Ministério da Defesa. Ele foi redigido em cooperação com o Ministério das Relações Exteriores, que tem à frente o ministro Celso Amorim, que negociou os termos, como normalmente faz.

3. O acordo não fere a soberania nacional. Se fosse assim, violaria também a soberania dos Estados Unidos, pois se trata de um acordo absolutamente equilibrado e simétrico. Isso significa que não há nada que se atribua a uma parte que não se atribua à outra. Tudo o que vale para os Estados Unidos vale para o Brasil. E vice-versa.

4. Não bastasse isso, o artigo 3 do acordo é absolutamente cristalino. Trata das garantias. É uma cláusula consagrada no pacto da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) assinado em novembro passado:

Na execução das atividades de cooperação realizadas no âmbito deste Acordo, as Partes comprometem-se a respeitar os princípios e propósitos relevantes da Carta das Nações Unidas e da Carta da Organização dos Estados Americanos, incluindo os de igualdade soberana dos Estados, integridade e inviolabilidade territoriais e não-intervenção em assuntos internos de outros Estados.

5. Como o Viomundo já havia informado em outra matéria sobre o assunto, o acordo não autoriza a presença de base dos Estados Unidos no Brasil. Também não autoriza a presença de tropas estrangeiras no país para que pudessem fazer o que bem entendessem em determinado lugar. Além disso, não cede instalações nem território. Portanto, não deixa o Brasil em desvantagem.

6. Com relação ao treinamento de militares, os tempos são outros. O Brasil tem maturidade para saber o que fazer para qualificar as suas Forças Armadas. Tem mais. O Brasil tem acordos para receber, treinar e cooperar com militares de países da América do Sul e da África. Nem por isso o Brasil está fazendo lavagem cerebral ou adestramento. O treinamento de militares em cooperação com outros países já se faz há décadas. Não tem fundamento a ideia de que seriam cooptados para prejudicar o país.

7. O acordo não cria nenhuma obrigação ou expectativa de natureza comercial. Se aviões brasileiros forem vendidos aos EUA, será por méritos técnicos. Em hipótese alguma o acordo está condicionado à venda – ou a compra, diga-se de passagem – de aviões. Não há nenhum jogo de negociação por trás disso. Se o Brasil vender aviões, ótimo. Quanto mais, melhor. Exportar produtos de alto valor agregado é parte importante do interesse nacional.

8. A postura firme, independente e altiva que o Brasil tem adotado no cenário internacional, algumas vezes em contraposição às posições estadunidenses, desautoriza qualquer sugestão de que o acordo representa algum tipo de submissão ou capitulação.

domingo, 11 de abril de 2010

Duas chuvas, duas medidas.





Tirado do Onipresente

Eu poderia encher esse post com frases de efeito, tipo "A veja é parcial", "pratica um "jornalismo(?) capenga", "Age com interesses escusos, beneficiando todos os candidatos contra Lula", etc, etc, etc.

Mas, diante do flagrante explícito, duas imagens bastam! Esse tipo de postura dá náuseas. E não precisamos considerar que temos um pouco mais de inteligência para observar isso. O que nos deixa indignados é ouvir os assinantes da revista repetirem, feito papagaio, o que é ditado pela revista. Aí, nesse momento, dá pra saber quem é o bobo na estória!


Jornalismo é a atividade profissional que consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. Também define-se o Jornalismo como a prática de coletar, redigir, editar e publicar informações sobre eventos atuais. Jornalismo é uma atividade de Comunicação.

O que a "veja" praticou aqui? Informações sobre fatores atmosféricos? Ora, a mesma combinação de fatores atmosféricos que causaram as chuvas em São Paulo, causaram as chuvas também no Rio, e causam em outras partes do Mundo (graças a Deus). Porém não é necessário o Jornalismo tratar disso com ênfase numa revista da linha editorial de "veja", sobre "fenômenos atmosféricos". Foi "forçar a barra" em São Paulo para blindar o "candidato da Mídia", e, no oposto, no Rio, para dar tom de incompetência dos Políticos da base de apoio ao Lula.

Hoje, o Rio sofre as conseqüências dessa chuva e outras ainda por vir e se é culpa ou omissão dos governantes, não seria apenas dos atuais, na atual gestão. Seria mais honesto dar nome aos bois, aquela manada que ficou 16 anos no governo do Rio. Mas assim, seria pedir muito.

Atinge-se Lula por tabela. Manda-se às favas a ética, a vergonha de ser tão parcial e a linha da necessária credibilidade (ou ausência dela) de uma revista que tinha a obrigação de fazer apenas JORNALISMO.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Nova Ordem Mundial e o Brasil

Tirado de Vi o Mundo

O eixo do mundo roda para a Ásia. O Brasil deve apenas assistir?

por Luiz Carlos Azenha

Recentemente o Viomundo republicou um artigo de Otávio Frias Filho sobre a política externa brasileira. O estilo é elegante, como sempre, embora eu discorde do conteúdo. O publisher da Folha argumenta que a política externa é algo muito sério para ficar nas mãos de diplomatas ou ideólogos. Talvez devesse acrescentar os jornalistas nessa lista. Especialmente aqueles cuja curiosidade intelectual parece anestesiada ou subordinada a projetos eleitorais.

Há algumas semanas fui ao Rio de Janeiro entrevistar o historiador Alberto da Costa e Silva. Ele fez observações sobre a inserção da África no comércio internacional antes das grandes viagens de “descobrimento” dos europeus. Usei as aspas pelo fato de que, na verdade, foram os asiáticos que primeiro navegaram o oceano Índico em direção à África para fazer comércio, dominado então pelos mercadores árabes. Isso explica porque objetos chineses foram encontrados por arqueólogos em escavações feitas na costa africana do Índico, por exemplo.

Só muito mais tarde, a partir dos primórdios da revolução industrial, os europeus gradativamente assumiram o controle do comércio e colonizaram as Américas, a Ásia e a África, para levar os três C’s: Comércio, Civilização e Cristianismo.

Podemos dizer, sem medo de errar, que o processo de descolonização ainda está em andamento e que será acelerado pela decadência relativa da Europa e dos Estados Unidos em relação a países ou grupos de países emergentes: China, Índia e Brasil, mas também Coréia do Sul, Indonésia e Irã. E as relações que estes países desenvolverão entre si, sem pedir licença a Washington, Londres ou Paris.

A política externa num mundo multipolar é muito mais complexa do que era no período da guerra fria, quando nossas escolhas ficavam limitadas a integrar o espaço geopolítico dos Estados Unidos ou da União Soviética. Diz-se que era a armadilha da “competição” entre Coca-Cola e Pepsi, quando muitos talvez tivessem feito outra escolha, se pudessem fazê-lo. Houve um ensaio, no movimento dos países não-alinhados, sem efeitos práticos consideráveis.

Mas o fim da guerra fria e a ascensão econômica da China promoveram a revolução mundial em andamento: os eixos de poder estão em deslocamento acelerado. Nos Estados Unidos se fala do século 21 como mais um século americano (estadunidense), mas não há como negar que este será o século da Ásia, pelo poder combinado de grandes populações consumidoras, educadas e dotadas de alta tecnologia.

É só juntar a China, a Índia, o Japão, a Indonésia, a Coréia do Sul, a Malásia, as Filipinas, o Vietnã , boa parte da Rússia e o Irã para vocês terem uma ideia do que estou falando.

O que me leva de volta àquela conversa com o historiador Alberto da Costa e Silva, que observou que a África estava voltando lentamente a ser o que foi antes dos grandes descobrimentos dos europeus: um espaço periférico do comércio asiático.

Tenho visto isso em minhas viagens à África. É um fenômeno que em breve abordaremos na revista Nova África: a penetração chinesa. Os três Cs da China na África são: Chineses, Comércio e Construção. Beijing incentiva a imigração de chineses para o continente, em busca de oportunidades de negócio. Eles já dominam o comércio em vários países, inclusive onde me encontro, Cabo Verde.

Trazem consigo mercadorias baratas. Existe algum ressentimento contra a presença dos chineses, mas muito menos do que quer fazer crer a mídia ocidental. A população local, pelo menos nesse primeiro momento, reconhece que entrou no mundo do consumo pelas mãos dos chineses. Outro dia chequei o preço de um DVD em uma loja chinesa: o equivalente a 100 reais. Famílias inteiras que antes não podiam calçar os filhos ou comprar material escolar para mandá-los à escola agora podem fazê-lo.

Além disso, em países onde os europeus só deixaram a infraestrutura básica necessária à exploração dos recursos locais, os chineses fazem obras fundamentais para o desenvolvimento. Aqui em Cabo Verde, um país árido, fizeram a primeira grande represa para capturar a água de chuva que corria para o oceano, o que poderá ter consequências notáveis para a produtividade agrícola. Tudo feito em tempo recorde, com mão-de-obra chinesa, por construtoras chinesas e financiamento chinês.

Neocolonialismo? É um debate interessante, com os chineses argumentando em sua defesa que não interferem na política local, não promovem ocupação territorial, nem cultural.

Também noto, em minhas viagens, o surgimento de fontes de informação que já não refletem mimeticamente as ideias de Washington, Londres ou Paris. A rede árabe Al Jazeera tem uma audiência notável, especialmente no norte da África. O jornal Asia Times Online, do qual frequentemente reproduzo artigos traduzidos pela Caia Fittipaldi, tem iluminado de forma notável o intrincado jogo diplomático e econômico nas relações entre China, Índia, Irã e Rússia. É parte do que eu definiria como “descolonização mental”.

Em seu artigo sobre a política externa brasileira, o publisher da Folha argumenta que o Brasil não deve “caçar” confrontos gratuitos com os Estados Unidos. Que eles virão naturalmente. Ele pode ter razão, não sei. Mas acho que a questão é muito mais complexa e que não deve ser tratada a partir da perspectiva de nossas relações com Washington. Trata-se de discutir qual é a inserção do Brasil em um mundo multipolar, no qual o eixo do poder se desloca para Ásia.

É nesse contexto que cabe avaliar as relações bilaterais do Brasil com países como a Rússia, a China, a Índia e o Irã.

Em minha modesta opinião, devemos buscar uma política multifacetada, que explore os consensos e mesmo as dissensões entre os diferentes protagonistas, mirando sempre no interesse econômico nacional e tirando proveito do papel sui generis do Brasil como uma potência diplomática, não militar. Não acho prudente subordinar a política externa brasileira, aqui ou ali, aos interesses de Washington ou Beijing, mesmo que no curto prazo isso represente ganhos econômicos.

Não sou especialista, apenas um curioso, mas me parece que chegou a hora de descolonizar nossas relações externas. O que começa pela descolonização mental.


Bases americanas no Rio

O Conversa Afiada reproduz o artigo de Mauro Santayana:

Um tratado indesejável

08/04/2010 – 23:06 | Enviado por: Mauro Santayana
Por Mauro Santayana

Com todas as explicações, incluídas as do Itamaraty, em nota oficial, é inconveniente o Acordo Militar que o Brasil está pronto a assinar com os Estados Unidos. Podemos firmar acordos semelhantes com países que podem comparar-se ao nosso, mas não com aquela república. É lamentável que esse tratado seja negociado pelo atual governo.

Segundo a imprensa internacional, prevê-se a instalação de uma base norte-americana no Brasil. A última base americana em nosso chão se limitava ao acompanhamento dos primeiros satélites artificiais, em Fernando Noronha. Ela foi discretamente fechada em 1961, por iniciativa de Tancredo que, como primeiro-ministro, negou-se a prorrogar o convênio, sob o argumento de que ainda não obtivera a opinião das Forças Armadas. Geisel, em 1977, em pleno regime ditatorial, denunciou o Tratado Militar que tínhamos com Washington, e fora renovado em 1952, por iniciativa de João Neves da Fontoura, contra a opinião do ministro da Guerra de então, o general Estillac Leal – que se demitiu como protesto. É da restauração paulatina desse antigo Tratado que se trata.

Antes houve a base de Natal, no esforço comum da guerra contra a Alemanha nazista. Terminado o conflito, em 1945, Getúlio agradeceu muito a contribuição norte-americana e, mesmo com as pressões ianques a fim de manter o enclave militar, dispensou-os desse cuidado. Não havia necessidade de tanto dispêndio para a nossa hipotética proteção.

O fato é que as negociações para a instalação de uma base norte-americana no Brasil, para o combate às drogas, foram anunciadas, em Quito, pelo subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela, e repercutiram no exterior, em que pesem os desmentidos do Brasil. Apesar de sua cuidadosa linguagem diplomática, a nota oficial do Itamaraty não é suficiente para afastar as dúvidas: trata, em termos vagos e genéricos da “cooperação em assuntos da defesa” e intercâmbio no treinamento militar. Nós conhecemos essa antiga canção, que nos remete ao centro de doutrinamento ideológico do Panamá. Ali muitos de nossos oficiais foram moldados para a submissão aos interesses norte-americanos, em nome da divisão do mundo entre os bons (os ianques) e os maus (quaisquer outros que contestassem a sua hegemonia). Foram alguns deles, com Castello Branco, Lincoln Gordon, Vernon Walters, a Quarta Frota e a CIA, que fizeram o golpe de 1964.

Os vizinhos sul-americanos – e os parceiros do Bric – se inquietam, e com razão. Eles têm contado com a firmeza do Brasil em defender a soberania de nossos países contra qualquer presença militar estrangeira no continente, como ocorreu no caso da Colômbia. A mesma firmeza deveremos ter se, amanhã, a Venezuela aceitar bases russas em seu território, ainda que a pretexto de se defender de ameaça na fronteira.

Acordos dessa natureza devem ser discutidos, previamente, com a sociedade e com o Congresso. Doutor Rosinha, deputado do PT do Paraná, membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, estranha que seu órgão não tenha sido informado do andamento do processo de negociações, cuja iniciativa é debitada ao Ministério da Defesa.

Conviria ao ministro Nelson Jobim poupar-se de outro escolho biográfico – ele que deles anda bem servido – e explicar sua posição no episódio. A reação, no Congresso, é de perplexidade. É quase certo que o Poder Legislativo negue ratificação ao Tratado. Quando se estabelecem acordos de cooperação de defesa militar, pressupõe-se que haja inimigos comuns, a serem eventualmente combatidos. Não sabemos de que inimigos se trata. Certamente não serão a China, a Índia, nem a Rússia, nossos aliados estratégicos no Bric, e tampouco a Bolívia ou a Venezuela, bons vizinhos. É inadmissível pensar que venha a ser o distante Irã. Provavelmente, um dos interesses seja sabotar os nossos entendimentos com os parceiros do Bric, e da Unasul, que nos fortalecem no mundo.

Esse Tratado compromete o futuro do país e tem um motivo estratégico maior por parte de Washington, ainda que bem dissimulado e a prazo mais longo: o controle da Amazônia e a reconquista do poder colonial sobre o continente.

Clique aqui para ler.

O Conversa Afiada reproduz o artigo enviado pelo amigo navegante fonjic:

Enviado em 09/04/2010 às 2:27

Paulo Henrique,

olha só isso, o serrista Jobim não pretende trair só o Lula, está traindo o áis todo:

Brazil agrees to host US military base
Tuesday 06 April 2010
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Brazil has shocked its Latin American neighbours by admitting that Defence Minister Nelson Jobim was negotiating an agreement with the Pentagon to open a US military base near Rio de Janeiro.

US Secretary of State for the Western Hemisphere Arturo Valenzuela confirmed that a “security agreement” between Brazil and the US was being worked out by Mr Jobim and the Pentagon’s Latin America operations chief Major Douglas Fraser.

The base, which would permit US planes and warships to patrol the South Atlantic to “combat drug trafficking,” will be sited near Brazil’s former capital on the country’s south-east coast.

Brazil is a member of the Union of South American Nations which voted overwhelmingly last year to reject the installation of seven US military bases in Colombia as an affront to Latin American independence.

But Mr Valenzula declared that the US believed the presence of foreign troops in Latin America had now been “accepted by the region.”

“I think that everyone understands that the Colombian deal was a bilateral agreement with no intention of extraterritoriality,” he claimed.
http://www.morningstaronline.co.uk/index.php/news/content/view/full/88816

O mauro Santayana já escreveu um artigo sobre isso, perfeito, como sempre.

Empresários da construção: Lula dialoga; Serra, não

Tirado de Vi o Mundo

Comparações de Lula ecoam em plateia da construção civil

Cristiane Agostine, de São Paulo

08/04/2010

No Valor Econômico, via Nassif

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva testou com uma plateia de empresários o discurso eleitoral de comparação de seu governo com o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e foi bem-sucedido. Na noite de terça-feira, Lula recebeu apoio de dezenas de representantes da construção civil, em São Paulo, ao criticar a falta de investimentos no setor, “deteriorado há mais de vinte anos” e discorrer sobre o ineditismo do sistema capitalista brasileiro, que não tinha nem “capital nem financiamentos” em anos anteriores.

Empresários, beneficiados sobretudo por programas como o Minha Casa, Minha Vida, aprovaram também a crítica feita aos anos FHC e a comparação sobre os financiamentos feitos pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que aumentaram entre 2003, primeiro ano do governo Lula, e 2010.

É o caso do presidente da Associação Brasileira da Indústria de Material de Construção, Melvyn Fox, que disse “concordar totalmente” com o discurso feito pelo presidente na cerimônia de abertura da 18ª Feira da Indústria da Construção e Iluminação, em São Paulo. “O setor da construção civil estava estagnado. Muito pouco foi feito até o fim do primeiro mandato de Lula. Houve uma mudança radical”, comentou.

Cláudio Conz, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção, disse que o setor “está em êxtase”, com projetos como o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 1 e 2. “A comparação entre os dois governos não é uma questão política, mas sim numérica. Os resultados dos dois governos não são comparáveis”, disse Conz. O otimismo se explica, em parte, pela previsão de crescimento 10% na venda de material de construção.

Na abertura da feira, Lula não poupou críticas a FHC e disse aos empresários que não deixem de lembrar como era a situação anos atrás. “De repente as pessoas esquecem do mundo que a gente veio, do mundo em que a gente está e do mundo que a gente quer ir. Este país teve o seu setor da construção civil praticamente deteriorado durante mais de 20 anos”, declarou. Ao fazer o autoelogio, o presidente disse que a Caixa Econômica Federal investe “nove vezes” o que investia em 2003 e que o crédito cresceu de R$ 380 bilhões para R$ 1,4 bilhão. O BNDES, continuou Lula, emprestava R$ 38 bilhões e este ano fechará com R$ 139 bilhões.

A comparação entre Lula e FHC tem sido evitada pelos tucanos e apoiadores da campanha do ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) à Presidência. O presidente, no entanto, sinalizou que deve insistir nessa linha em seus discursos. “Cansei de ver o Brasil se portar como se fosse um país de segunda categoria. Tudo a gente achava que não podia fazer e tudo, quando não dava certo, se jogava a culpa em cima do governo. E como o governo também não fazia, não falava nada e ficava todo mundo enganando todo mundo neste país”, declarou.

Em seu discurso, Lula disse que deixará para seu sucessor “uma prateleira de projetos e programas”, para que o próximo presidente não tenha que “começar do zero” como ele. Ao fazer propaganda do PAC 2 para empresários que se beneficiarão diretamente dele, Lula afirmou que lançou o programa para mudar o paradigma do país. “Não era possível um país capitalista viver sem crédito e sem capital. Isso mudou definitivamente”, disse. “Quem vier a tomar posse na Presidência da República em janeiro de 2011 sabe que não existe mais espaço para pequenez política, não existe espaço para pequenos programas. Este país é grande e exige que os seus governantes pensem grande”, declarou.

Representantes da construção civil disseram não temer o próximo governante, quem quer que ele seja, nem a paralisação das obras do PAC e do Minha Casa, Minha Vida. Para Dilson Ferreira, presidente executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas, “as mudanças no setor foram estruturais” e devem ser mantidas pelo sucessor de Lula. “Não foram mudanças circunstanciais”, disse. No entanto, empresários ressaltam que a relação com Serra foi mais complicada, sobretudo por medidas como a substituição tributária, adotada em São Paulo. “Nossa relação com o governo estadual foi muito difícil”, relatou Fox. “O que muda entre Dilma e Serra é a forma de dialogar. No Estado, não tivemos diálogo”, disse Conz.


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Ps. Qual é o déficit habitacional brasileiro? Que relação isso pode ter com os desabamentos no Rio ou os alagamentos em São Paulo?

Caros Amigos: Quem prejudica o Brasil?


Tirado de Vi o Mundo

Edição especial da revista Caros Amigos faz, por meio de várias reportagens, uma radiografia da direita brasileira. Já está nas bancas, comprem-na. Vale a pena. Fiquem com editorial. É uma mostra da edição.

Editorial da Caros Amigos

A direita brasileira continua muito atuante, tem uma agenda própria e articula ataques em várias frentes contra o que pode ameaçar seus interesses. O oligopólio da mídia neoliberal-burguesa expressa exatamente o que quer e o que faz a direita, que atua nas instituições públicas, nos poderes da República, nos bastidores da política e da economia. A direita cuida especialmente da defesa do capital, das vantagens econômicas do empresariado, dos privilégios patrimoniais das elites e do poder político das oligarquias.

Desde o final do ano passado a direita brasileira cerrou fileiras para enterrar de vez o esclarecimento dos crimes praticados pelo Estado na ditadura militar (1964-1985), em especial o que foi suscitado pelo 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos, lançado em dezembro, e que levou o presidente da República a fazer alterações ao gosto dos setores mais reacionários. A direita não quer saber de Comissão da Verdade e da Justiça, não quer passar a limpo a história da prisão, tortura, morte e desaparecimento de opositores políticos.

A direita ataca as propostas de democracia participativa, tudo o que possa aperfeiçoar o sistema representativo e assegurar ao povo o papel de sujeito da história. A direita critica a realização de conferências nacionais que possibilitam a formulação de políticas públicas, assim como as propostas de plebiscitos e referendos para as grandes definições nacionais.

Amarrada aos pontos do Consenso de Washington, mesmo com o fracasso e a crise do neoliberalismo em todo o mundo, notadamente na América Latina, a direita brasileira continua defendendo a privatização de serviços públicos, rodovias, portos, aeroportos, educação e saúde – apesar da péssima prestação de tais serviços pelas empresas privadas.

Ao mesmo tempo rejeita, com muita força, todas as medidas que possam melhorar as condições de vida e trabalho do povo brasileiro. No momento, ataca a redução da jornada de trabalho para 40 horas e a mudança nos critérios das aposentadorias. A direita não tem o menor interesse que os trabalhadores conquistem uma vida com dignidade, que as leis trabalhistas sejam cumpridas.

A direita não se importa com a construção de um País mais justo, que assegure igualdade de oportunidade para todos, que amplie direitos, que trate do bem-estar das pessoas antes do lucro e do sucesso das empresas. Conhecer mais sobre a direita é identificar quem realmente tem prejudicado o Brasil.


EUA: Legitimidade em crise no Afeganistão

Tirado de Vi o Mundo

Líderes pashtuns, reunidos em loya Jirga no Afeganistão em 27 de março de 2010, acusaram EUA e o Paquistão de só discutirem seus próprios interesses políticos

por William R. Polk, em The Nation

Nas celebrações midiáticas da “vitória” dos EUA sobre os Talibã no vale Helmand, pouca atenção deu-se à natureza da guerrilha: é tática típica da guerrilha desaparecer quando há presença de força muito superior, deixando à vista apenas alguns combatentes, para que o invasor seja forçado a ferir civis e causar dano a propriedades e instalações civis. Foi exatamente o que aconteceu em Marja. Ante proporção de cerca de 20 soldados superequipados para cada combatente da resistência, além de helicópteros, tanques e aviões bombardeiros, os guerrilheiros desapareceram de vista. Fizeram o que tinham de fazer. “Vitória” não é boa palavra para o que se viu lá.

Exatamente a mesma situação repetir-se-á também em Candahar, que, diferente da região agrícola e de poucos moradores dispersos conhecida como Marja, é cidade grande e densamente povoada. Planejam-se outras operações, o que leva a crer que a “vitória” dos EUA em Marja definiu um padrão que consagra a ação militar. Essa não é estratégia que preveja futura retirada – e não leva os soldados dos EUA para fora, mas, sim, cada vez mais para dentro, do território afegão. Isso, aliás, parece ser o plano já em execução.

O Washington Post noticiou pouco depois do fim da batalha de Marja, que “os marines estão construindo enorme base militar nos arredores da cidade [sic], com duas pistas de pouso, hospital de combate dotado dos recursos mais modernos, estação de correios, enorme loja de conveniência e longas filas de trailers de moradia que avançam a perder de vista”.

Dado que o vale de Helmand é ponto focal da estratégia militar, é importante entender que papel desempenha nos negócios afegãos. O projeto de irrigação do vale de Helmand, iniciado no governo Eisenhower como eco distante da agência Tennesse Valley Authority (TVA)[1] deveria criar ali uma próspera ilha de democracia e progresso. Como membro do Conselho de Planejamento e Políticas do governo Kennedy, visitei o projeto em 1962.

O que vi lá foi assustador: não havia qualquer estudo sobre a região a ser “desenvolvida” – havia uma lâmina de solo impermeável logo abaixo da superfície, de modo que, irrigado, o solo ali se tornava imediatamente salino; o solo não fora nivelado; a irrigação, portanto, não funcionava; ninguém se preocupara em ensinar os nômades a fixar-se e plantar; os grupos eram pequenos demais e não havia ‘comunidade de base’ a partir da qual alguma engenharia social pudesse pensar em estimular o surgimento de alguma classe média; e, dado que não havia financiamento de qualquer tipo, nem para comprar sementes, os agricultores estavam pagando juros de 100% a agiotas e especuladores. Em resumo: depois das altíssimas expectativas que haviam sido criadas ali, o desapontamento e a desconfiança eram palpáveis.

Criamos um monstro? Parece que sim. Seja como for, não há como não ver que precisamente onde tentamos implantar o primeiro programa de ação cívica dos EUA naquela região é onde os Talibã tornaram-se mais fortes.

E o que aprendemos com aquela experiência? Que nada sabemos sobre os afegãos e seu país, nem sobre os objetivos que os afegãos tenham para o país deles… Mas, outra vez, já temos uma política definida para implantar no Afeganistão! Temos muito a aprender.

Quero aqui apenas alinhavar três questões que me parecem cruciais, e que decidirão se construiremos novas relações com os afegãos, ou se faremos deteriorar de vez qualquer relação que algum dia os EUA tenham tido, lá.

1. A primeira questão crucialmente importante para que se avaliem as políticas dos EUA para o Afeganistão é o modo como os afegãos governam-se. Quatro, de cada cinco afegãos, vivem numa das mais de 20 mil vilas que há no país. Numa viagem de 4 mil quilômetros pelo país, em jeep, a cavalo, e por avião, há quase meio século, e em inúmeras viagens posteriores, convenci-me de que o Afeganistão é aqueles milhares de pequenas vilas, cada uma delas relacionada culturalmente às vilas próximas, sim, mas, apesar disso, cada uma delas mais ou menos independente em termos políticos, e economicamente autárquica.

Essa falta de coesão nacional confundia os russos, durante a ocupação: eles tiveram inúmeras vitórias militares, e, mediantes programas de ação cívica, realmente passaram a controlar muitas vilas, mas jamais conseguiram encontrar ou criar qualquer tipo de organização que pacificasse todas as vilas ou que, em termos gerais, promovesse a paz. Em termos claros, nenhum soviético jamais conseguiu render quantidade significativa de vilas. Assim, ao longo da década em que lá estiveram, os russos venceram praticamente todas as batalhas e ocuparam, em determinado momento, praticamente cada palmo quadrado do território, mas perderam lá cerca de 15 mil soldados – além de terem perdido a guerra. Quando afinal desistiram e retiraram-se, os afegãos voltaram ao seu modo tradicional de vida.

Aquele modo tradicional de vida está tecido num código social (chamado, nas áreas pashtuns, de Pashtunwali) que modela a forma específica de islã que lá se pratica há séculos e que, de fato, já existia antes de o Islã chegar lá. Por mais que haja, claro, diferenças notáveis entre as áreas pashtun, hazara, uzbeque e tadjique, tradições partilhadas determinam o modo como os afegãos governam-se e como reagem a estrangeiros.

Dentre essas formas culturais e políticas partilhadas estão os conselhos “de vila”(chamados de jirgas, nas áreas pashtuns; e de ulus ou shuras, nas áreas hazara). Os membros não são eleitos, mas indicados, para diferentes postos, por consenso. Esses conselhos ‘de vila’ não são instituições, no sentido que damos às palavras; podem ser definidos como o que conhecemos como “ocasiões”. Reúnem-se cada vez que haja uma questão que não possa ser resolvida por um chefe local ou líder religioso respeitado.

Esses “conselhos de vila” são a versão afegã de democracia participativa. O que decidem é visto como corporificação do “modo de fazer as coisas” das comunidades.

Pela regra do Pashtunwali os visitantes têm de ser protegidos (o direito à melmastia). Não abrigar e proteger um hóspede é pecado tão grave, e demonstração tão série de fraqueza ou de fracasso, que o homem prefere morrer a falhar na proteção ao hóspede de sua casa. Por isso, claro, os afegãos não entregaram Osama bin Laden. A incapacidade de conciliar as exigências dos EUA e os costumes afegãos sempre esteve na raiz da guerra que os EUA lutam lá, já há oito anos.

Dois governos, Bush e Obama, já declararam que o objetivo dos EUA é impedir que a Al-Qaeda use o Afeganistão como base para atacar os EUA. Depois, esse objetivo foi afinado: bastaria capturar ou matar bin Laden. Pode ser bom slogan eleitoral, mas ainda que os EUA fossem capazes de forçar os afegãos a entregar Bin Laden, só teríamos conseguido afastar-nos ainda mais, e talvez definitivamente, da comunidade pashtun dominante. E o perigo aumentaria, para os EUA; e nada estaria resolvido.

Verdade é que a solução é outra, pode ser favorável aos EUA e está aí à vista, há anos.

É verdade que as regras do Pashtunwali não permitem que um hóspede protegido seja entregue ao inimigo; mas as mesmas regras permitem que o dono da casa, com honra, impeça o hóspede de praticar qualquer ação que ponha em risco a família e a casa que o abrigam. No passado, os Talibã já prenderam bin Laden. E têm repetido inúmeras vezes que acederão à exigência dos EUA (de não fazer do Afeganistão uma base segura para a Al-Qaeda). Basta, para esse acordo, que EUA e OTAN retirem todos os seus soldados do Afeganistão. A dificuldade está em que os EUA, até agora, fixaram uma data para a retirada. Mas ainda não aceitaram formalmente o acordo com os afegãos.

2. A segunda questão crucial na avaliação da política dos EUA para o Afeganistão é o modo como os afegãos reagem aos programas de ação cívica que os EUA querem implantar lá.

O Afeganistão é país fechado, de poucos recursos, com povo que sofre a desgraça de guerra praticamente contínua há 30 anos. Há muitos doentes e muitos feridos. A fome é ameaça constante e próxima. As estatísticas são aterrorizantes: mais de um, de cada três afegãos, vive com menos de 45 centavos de dólar por dia; praticamente um, de cada dois afegãos, vive abaixo da linha da pobreza; e mais de uma, de cada duas crianças em idade pré-escolar sofre de subnutrição. São as que tem sorte. Uma de cada cinco crianças morre antes de chegar aos cinco anos. Claro que os afegãos precisam de ajuda. Então, os EUA concluem, eles receberão com gratidão os esforços norte-americanos para ajudá-los. Observadores independentes, contudo, já sabem que não, que os afegãos não são gratos aos EUA. Baseados em 400 entrevistas, pesquisadores da Tufts University constataram que “os afegãos têm percepção altamente negativa dos projetos de ajuda e dos atores daqueles projetos.” É indispensável saber por quê.

A causa, parece-me, é que os Talibã entendem, dos discursos “ocidentais” sobre ações e projetos de ação cívica, que essa “ação cívica” é uma espécie de arma de guerra e força de ocupação. Os afegãos aprenderam sobre “ação cívica” com os russos, há muito tempo. E o general David Petraeus declarou, sem meias palavras, nos seus tempos de Iraque, que “Minha principal munição nessa guerra é o dinheiro”. Muitos afegãos comuns veem os programas de ação cívica dos EUA exatamente como Petraeus os descreveu – como arma de controle e conquista. E, se não colaboram nelas, certamente apóiam ou, no mínimo, toleram as ações dos Talibã quando destroem os projetos da “ação cívica” dos EUA ou impedem a distribuição de qualquer ajuda.

Para entender esse processo, é útil lembrar o que houve no Vietnã. Também lá, os EUA descobriram que as pessoas ressentiam-se com o que viam feito e não poucas vezes aliaram-se aos inimigos dos EUA, equivalentes locais dos Talibã: os vietminh, ou, como foram chamados, os vietcong. Os vietminh mataram funcionários, professores e médicos, destruíram também obras que beneficiavam o país. Para os estrangeiros, a violência deles acabaria por torná-los odiados pela população. Não aconteceu assim. Como o governo de Cabul, o regime do Vietnã do Sul era tão corrupto e predatório que poucos o apoiavam, mesmo que os beneficiasse. Quando os EUA “herdaram” a guerra do Vietnã, pensaram que o melhor seria manterem-se separados do regime corrupto; e usaram os próprios funcionários dos EUA para os serviços de prestação de ajuda humanitária nas vilas. Os serviços foram prestados, mas a prestação independente daqueles serviços acabou por enfraquecer ainda mais a relação entre o governo do Vietnã do Sul e a população.

E que interesse tem isso, no caso do Afeganistão? Basta pensar no que disse o general Stanley McChrystal, quando suas tropas chegaram a Helmand: disse que levava para lá, “um governo encaixotado; basta tirar da embalagem e usar.” Esse governo é uma mistura de norte-americanos e afegãos selecionados pelos norte-americanos, de cuja constituição não participaram nem o atual governo em Cabul nem as autoridades locais em Helmand.

Como os afegãos reagirão ao governo de McChrystal? O presidente Karzai opôs-se de início, vendo no movimento uma tentativa de diminuir a autoridade de seu governo. Não se sabe ainda o que os habitantes pensaram. Mas os EUA sabem que quando tentaram semelhantes táticas de contraguerrilha no Vietnã, aquelas táticas – como se lê nos Pentagon Papers, que são documentos oficiais dos EUA – “falharam inapelavelmente”.

Se os EUA visam a criar e deixar implantada uma sociedade razoavelmente segura no Afeganistão, a primeira providência é abandonarem essa política já fracassada; a segunda é marcarem data razoável para completa retirada. Só assim os afegãos poderão dissociar o que é de fato ajuda humanitária e o que é guerra de contraguerrilha.

Isso porque, depois de um cronograma de retirada ser claramente anunciado, poderá começar uma transformação na psicologia política da relação entre EUA e os afegãos. Não haverá motivo (ou haverá progressivamente cada vez menos motivos), depois de a retirada das tropas ser anunciada, para os afegãos confundirem o que é guerra de contraguerrilha e o que é ajuda humanitária. Nesses termos, as jirgas locais poderão aceitar os projetos que beneficiem de fato cada região – porque os membros das jirgas, tradicionalmente, são sensíveis ao que interessa diretamente à prosperidade e à saúde, em suas regiões e nas dos seus vizinhos. Rapidamente entenderão que lhes interessa proteger o que consigam por contribuição dos estrangeiros, mais do que lhes interessa admitir e facilitar que os Talibã destruam tudo. (…) Sem a proteção dos conselhos, os Talibã perdem eficácia. Sem essa cooperação, como Mao Tse Tung ensinou há tantos anos, serão como peixes sem água onde nadar. Nesse sentido, portanto, é urgentemente necessário que os EUA fixem uma data e estabeleçam o cronograma da retirada de seus soldados do Afeganistão.

3. O que nos leva à terceira questão: o governo central. (…) Para os EUA a resposta parecia simples: todos os governos devem autolegitimar-se como os norte-americanos legitimam seus governos: em eleições razoavelmente limpas. Sim, mas… Os afegãos não legitimam seus governos exatamente como os norte-americanos.

A maneira afegã de legitimar governos é processo de alcançar consenso que implica aprovação pelo conselho supremo do Estado, a loya jirga. Ponto mais alto de uma pirâmide de assembléias de vila, tribais e provinciais, a loya jirga, segundo a constituição afegã é “a mais alta manifestação do desejo do povo do Afeganistão”.

Como os norte-americanos hoje, os russos também se opuseram aos movimentos que, em termos afegãos, construiriam um consenso nacional.

Em 2002, quase dois terços dos delegados de uma loya jirga assinaram petição para que o rei exilado Zahir Shah, fosse feito presidente de um governo de transição que daria tempo, aos afegãos, para planejar seu futuro. Mas os EUA decidiram que Hamid Karzai seria “nosso homem em Cabul”. Então, como escreveu ano passado o pesquisador e professor Thomas Johnson, ex-funcionário do serviço diplomático no Afeganistão: “interferência massiva dos EUA nos bastidores, sob a forma de subornos, acordos secretos e chaves de braço, instalou no poder Hamid Karzai, o candidato dos EUA. (…) Foi o equivalente afegão do Golpe de Diem em 1964 no Vietnã: dali em diante, nunca mais seria possível constituir qualquer governo secular estável.”

Um governo afegão de transição, aprovado pela loya jirga, teria permitido que operassem os modos tradicionais de construir consenso; mas, como noticiou Selig Harrison: Zalmay Khalilzad, então embaixador dos EUA no Afeganistão, “encenou uma reunião de 40 minutos com o rei, o qual, logo depois, retirou a candidatura.” Desde então, padecemos as consequências dessa reunião.

Será ainda possível reverter as consequências do que se tem feito no Afeganistão há tanto tempo? Se os EUA deixarem de opor-se ao que decida uma loya jirga, o governo de Cabul reagirá favoravelmente? Provavelmente não, enquanto os EUA só se preocuparem com proteger seus próprios soldados e funcionários. Mas se os EUA fixarem um cronograma claro e viável de retirada, os membros do governo afegão terão interesse direto e considerável em defender uma causa que poderão apresentar como causa nacional – e poderiam convocar uma loya jirga. De fato, o presidente Karzai já fez isso[2]. (…)

Em meu livro Violent Politics, em que estudo duzentos anos de guerrilhas, expus muitos fatos que indicam que, sim, é possível, mas não provável, que os EUA derrotem a guerrilha. Vez ou outra acontece de os guerrilheiros nativos expulsarem os estrangeiros ocupantes. Como leu-se no Washington Post no outono passado, o governo Obama admite que “os Talibã não podem ser eliminados como movimento político ou militar, por maior número e força de grupos de combate que sejam mandados para enfrentá-los.”

A loya jirga é a esperança que resta para criar um governo nacional afegão razoavelmente equilibrado. Na loya jirga, por sua própria dinâmica, os grupos locais saberão dar destaque às questões locais, de modo a promovê-los e defendê-los. Essa ação terá peso significativo na luta para conter os Talibã, que serão forçados a compor-se. Hoje, os Talibã beneficiam-se da aura de defensores dos afegãos contra os EUA invasores e ocupantes. Se não mais houver nem invasão nem ocupação, essa aura desaparecerá.

Se os EUA forem sensíveis o suficiente para admitir que os afegãos são capazes de resolver seus problemas à maneira deles, em vez de insistir em impor-lhes fórmulas made in USA, poderão dar a partida para um movimento rumo à paz e à segurança sustentáveis.

Para tanto, o primeiro passo indispensável e inadiável é a retirada. Mais guerra só fará crescer os custos e os prejuízos para os EUA e precipitará o fracasso.

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NOTAS

[1] Sobre essa agência, que foi um dos projetos do “New Deal”, cuja criação foi aprovada pelo Congresso em 18/5/1933, ver http://www.policyalmanac.org/economic/archive/tva_history.shtml.

[2] O texto da “Declaration of Pushtoon Qami Amn Jirga [Conselho Nacional de Paz dos Pashtuns], resultante da Jirga de 27/3/2010, pode ser lido em http://www.nowpublic.com/world/declaration-pushtoon-qami-amn-jirga-national-peace-council. Há matéria sobre a mesma Jirga em Al-Jazeera, 21/3/2010, em http://english.aljazeera.net/news/asia/2010/03/201032154710826235.html

* William R. Polk (williampolk.com) é diretor da W.P. Carey Foundation. É autor do recém-lançado Understanding Iraq, e trabalha em novo livro sobre Afeganistão, Paquistão e Caxemira, “The Cockpit of Asia” (título provisório).

Tradução: Caia Fittipaldi