quinta-feira, 25 de março de 2010

Custo das Obras do Governo Estadual

Tirado do Conversa Afiada.


O Conversa Afiada reproduz e-mail do amigo navegante Stanley Burburinho (quem será Stanley Burburinho, esse caçador de corruptos ?):

No dia 22/03 o Globo publicou uma matéria sobre as obras que o Serra inaugurou à distância. Fiz as contas com os valores anunciados por ele e fiquei assustado com os valores que encontrei. Por favor, façam as contas e me avisem se estou enganado:

Serra inaugura placas de obras ‘à distância’

1 – “(…) Para a recuperação dos 10,5 quilômetros das estradas o governo paulista investiu R$ 3 milhões.(…)”

Comentário meu – Stanley: o governo de SP gastará por Km recuperado (e não construído) mais de R$ 285.000,00. Custará R$ 285,00 por metro recuperado.

2 – “(…) Semana que vem, Serra vai à abertura das três novas faixas da Marginal Tietê, a principal via expressa de São Paulo, que cruza a cidade de leste a oeste, com 22 quilômetros de extensão. A obra custou R$ 1,3 bilhão, e tem previsão de reduzir em 40% o tempo de viagem. (…)”

Comentário meu – Stanley: a obra custou mais de R$ 59 milhões por Km. Cada metro de estrada custou R$ 59.000,00.

3 – “(…) O tucano também vai cortar a fita inaugural do trecho sul do Rodoanel, que consumiu R$ 4,7 bilhões. A intervenção, com 61,4 quilômetros de extensão, fará com que caminhões que deixam o interior com destino ao Porto de Santos não precisem mais passar pela capital paulista.
(…)”

Comentário meu – Stanley: a obra custou R$ 76,54 milhões por Km. Cada metro custou R$ 76.540,00


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Realmente, o Serra consegue fazer até o que o Maluf não foi capaz. Ele é ótimo!!!

terça-feira, 23 de março de 2010

Lula na ONU


Publicado em Página Internacional

O secretário-geral das Nações Unidas é o mais alto funcionário das Nações Unidas. Roosevelt chegou a nomeá-lo como "moderador do mundo", e na Carta das Nações Unidas, a posição é descrita como "chefe administrativo oficial". E segundo consta, esse é o próximo passo almejado pelo presidente Lula

Empolgado com os comentários de que seria o político mais popular da Terra (Obama), líder responsável (Clinton), irmão dos palestinos, aplausos de Chávez, dentre outros tantos, Lula anda avaliando a possibilidade de ocupar a cadeira de Ban-ki-Moon no fim de 2011. A idéia já era antiga entre os petistas, mas depois de endossada por Sarkozy em setembro, parece ter ganhado força.

A nomeação do secretário-geral é feita pela Assembléia Geral, após recomendação do Conselho de Segurança (passível de veto). Atualmente, o mandato do cargo consta de cinco anos, podendo estender-se por um segundo termo, sendo utilizado também o critério de rotação geográfica e da origem distinta dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Basicamente, trata-se do exercício da diplomacia e mediação sobre questões globais.

Em visita ao Oriente Médio, Lula colocou-se em posição de mediador dos conflitos Israel/Palestina. O porta voz da presidência da Palestina declarou que "[...] ele poderia ser um ótimo secretário-geral da ONU, pois é um homem de paz e de diálogo e sabe negociar de maneira inteligente e admirável". E, em mais uma de suas típicas metáforas, Lula disse que "O vírus da paz está comigo desde que eu estava na barriga da minha mãe".

São 8 os que ocuparam o posto de Secretário-Geral da ONU: Trygve Lie (Noruega), Dag Hammarskjöld (Suécia), U Thant (Mianmar), Kurt Waldheim (Áustria), Javier Pérez de Cuéllar (Peru), Boutros Boutros-Ghali (Egito), Kofi Annan (Gana) e Ban Ki-moon (Coréia do Sul). Se por um lado o posto de Secretário-Geral exige muito jogo de cintura, por outro é uma posição de extrema visibilidade.

Agora vamos ao Lula. Trata-se de uma figura claramente carismática (vide popularidade) e capaz de agradar iranianos e americanos. No entanto, justamente a posição "neutra" do Brasil quanto ao Irã pode trazer impedimentos dos EUA no Conselho de Segurança em uma hipotética candidatura de Lula ao posto. Quanto à Grã-Bretanha, o ponto de atrito viria com o apoio à Argentina na disputa das Malvinas.

Mas mais do que isso, como desculpar as declarações improvisadas e gafes de um secretário-geral? Já é difícil engolir as metáforas, pérolas e posições infelizes adotadas por Lula enquanto Presidente da República, como os incidentes sobre Cuba, Rússia, Israel, para citar apenas alguns. Se diz-se que não é necessário para um estadista ser diplomado, falar outras línguas, possuir educação formal, papas na língua, etc, o mesmo vale para a chefia da ONU?

Dá pra imaginar o Lula lá?

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Ps. Essa dá pra entrar na série "Agora FHC corta os pulsos", de PHA. Lá, na caverna do ostracismo, fundos (segundo a Tia Carmela), o ex-pensador e padrinho do Zezinho deve estar inconsolável.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Quarteto ameaça Israel e quer Estado palestino até 2012

Publicado no Yahoo

O chamado Quarteto condenou hoje o recente anúncio do governo israelense de que pretende construir mais casas em Jerusalém Oriental. O grupo, formado por Estados Unidos, Rússia, União Europeia (UE) e Nações Unidas, disse que considera "medidas adicionais" para lidar com a situação, sem contudo especificar quais seriam essas ações. O Quarteto também pediu que seja formado um Estado palestino em até dois anos, aparentemente endossando pela primeira vez um prazo similar proposto pela liderança palestina.

Em comunicado divulgado hoje, o grupo sugeriu que pode tomar medidas para pressionar o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, após o recente anúncio de que a administração pretende construir mais 1.600 casas em Jerusalém Oriental. Os palestinos querem essa parte da cidade como capital de seu futuro Estado.

O texto afirma que o grupo "condena a decisão do governo de Israel de avançar nos planos para novas casas em Jerusalém Oriental". Além disso, afirma que o Quarteto acompanhará de perto a situação e "mantém sob avaliação medidas adicionais que possam ser necessárias para lidar com a situação". Um porta-voz de Netanyahu disse que não tinha comentários a fazer sobre o comunicado, informou a Associated Press.

Prazo

A liderança do Quarteto reforçou hoje em Moscou seu objetivo de fazer com que Israel e os palestinos selem a paz, também com a criação de um Estado palestino. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, citou o prazo de 24 meses para uma solução e para o fim da "ocupação iniciada em 1967", na chamada Guerra dos Seis Dias, vencida por Israel.

O governo israelense anunciou na semana passada que aprovou a construção de mais 1.600 casas em Jerusalém Oriental. Isso causou a pior crise entre Washington e os israelenses em décadas. Israel fez o anúncio durante a visita do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, ao país, o que foi visto por alguns funcionários norte-americanos como um desafio do governo Netanyahu à administração do presidente Barack Obama sobre o tema das construções em assentamentos judaicos.

Netanyahu telefonou no fim da noite de ontem para a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, a fim de discutir formas de encerrar o impasse diplomático, segundo funcionários dos dois governos. Hillary reafirmou hoje a solidez da relação entre os dois países, mas observou que é preciso haver mais diálogo entre os dois governos para haver um avanço no processo de paz. O enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, George Mitchell, viaja para Jerusalém neste final de semana para encontros com Netanyahu e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

Violência

O Quarteto demonstrou hoje preocupação de que haja novos casos de violência em Israel e nos territórios palestinos. Ontem, militantes palestinos lançaram um foguete que matou uma pessoa no sul israelense. Os militares de Israel responderam atacando quatro áreas na Faixa de Gaza. "O Quarteto condena o disparo de foguete de ontem de Gaza e pede o fim imediato da violência e do terror, e que a calma seja respeitada", afirmou Ban. As informações são da Dow Jones.



terça-feira, 9 de março de 2010

O quiprocó do Sr. D. Torres e a reação da Folha


Por Leandro Fortes, no Brasília Eu Vi

A direção da Folha de S.Paulo, simplesmente, autorizou a um elemento estranho à redação (mas não aos diretores), o sociólogo Demétrio Magnoli, a chamar de “delinquentes” dois repórteres do jornal, autores de matéria sobre a singular visão do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) da miscigenação racial no Brasil. Vocês, não sei, mas eu nunca vi isso na minha vida, nesses 24 anos de profissão. Nunca. Por tabela, também o colunista Elio Gaspari, que desceu a lenha no malfadado discurso racista de Demóstenes Torres, acabou no balaio da delinquencia jornalística montado por Magnoli.

Das duas uma: ou a Folha dá direito de resposta aos repórteres insultados (Laura Capiglione e Lucas Ferraz), como, imagino, deve prever o seu completíssimo manual de redação, ou encerra as atividades. Isso porque Magnoli, embora frequente os saraus do Instituto Milleniun, não entende absolutamente nada de jornalismo e confundiu reportagem com opinião. A matéria de Laura e Lucas nada tem de ideológica, nem muito menos é resultado de “jornalismo engajado” (contra o DEM, na Folha??). A impressão que se tem é que houve falha nos filtros internos da redação e deixaram passar, por descuido ou negligência, uma matéria cujas conseqüências aí estão: o senador Torres, sujeito oculto da farsa do grampo montada em consórcio entre a Veja e o STF, virou, também, o símbolo de um revisionismo histórico grotesco, no qual se estabelece como consensual o estupro de mulheres negras nas senzalas da Colônia e do Império do Brasil.

A reação interna à repercussão de uma matéria elaborada por dois repórteres da sucursal de Brasília, terceirizada por Demétrio Magnoli, é emblemática (e covarde), mas não diz respeito somente à Folha de S.Paulo. O artigo “Jornalismo delinquente”, publicado na edição de hoje (9 de março de 2010), na página de opinião do jornal, nada tem a ver com políticas de pluralidade de opiniões, mas com intimidação pura e simples voltada para o enquadramento de repórteres e editores, e não só da Folha, para os tempos de guerra que se aproximam. A recusa de Aécio Neves em ser vice de José Serra deverá jogar o DEM, outra vez, no vácuo dos tucanos, a reviver a dobradinha iniciada entre Fernando Henrique Cardoso e o PFL, de triste lembrança. O imenso mal estar causado pela fala de Demóstenes Torres na tribuna d o Senado Federal, resultado do trabalho rotineiro de dois repórteres, acabou interpretado como inaceitável fogo amigo. Capaz, inclusive, agora, de a dupla de jornalistas correr perigo de empregabilidade, para usar um termo caro à equipe econômica tucana dos tempos de FHC.

Demétrio Magnoli, impunemente, chama a reportagem da Folha de S.Paulo de “panfleto disfarçado de reportagem”, afirmação que jamais faria, e muito menos a publicaria, sem autorização da direção do jornal, precedida de uma avaliação editorial e política bastante criteriosa. O fato de se ter permitido a Magnoli, um dos arautos da tese conceitualmente criminosa de que não há racismo no Brasil, insultar dois repórteres e o principal colunista da Folha, em espaço próprio dentro de uma edição do jornal, deixa a todos – jornalistas e leitores – perplexos com os rumos finais da velha mídia e de seu inexorável suicídio editorial em nome de uma vingança ideológica, ora baseada em doutrina, ora em puro estado de ódio racial e de classe.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Apartheid paulistano: a crise nos transportes

Publicado no Vi o Mundo

Mídia finge que não vê a crise no transporte de SP


Imprensa ignora crise no transporte paulistano

por Maurício Caleiro, no Observatório da Imprensa

A cobertura de graves problemas no transporte público na cidade de São Paulo, ocasionados em decorrência direta de decisões da prefeitura, tem sido, em geral, negligenciada pelos órgãos de imprensa, não obstante o transtorno que reiteradamente causam a um enorme contingente populacional.

Primeiro, algumas linhas municipais de ônibus que trafegam por regiões periféricas ou por franjas mais distantes de grandes avenidas deixaram de circular aos domingos, dia de descanso e lazer para muitos – mas nem de longe para todos. Estes, que se virassem como desse para chegar ao emprego; os demais, que passassem o dia enfurnados em suas casas ou entregues à modorra dos domingos suburbanos. Uma distância feita, em muitos casos, de um bom número de quilômetros, passou a separar, na ida e na volta, os primeiros de seus empregos e os segundos das áreas de lazer da cidade.

Mais recentemente, o sábado foi incorporado à féria, tornando inaceitável o que já era um problema perturbador. Pois se no domingo a atividade comercial consideravelmente menor tornava a questão menos premente – embora ainda assim constituísse um grave fator de exclusão social determinado por parâmetros econômicos –, a ausência de transportes também no dia anterior instaurou um pesado transtorno na vida de um número enorme de paulistanos.

Cobertura de cunho partidário

Afinal, ao contrário de domingo, tal dia da semana – em que muitos trabalham, notadamente os comerciários – tende a ser, para muitos, a única oportunidade semanal para satisfazer demandas ditadas pelo cotidiano com comércio e serviços, em sua maioria, abertos. Além disso, é a única noite da semana em que podem, se transporte até os locais de festas, shows e eventos houvesse, aproveitar a noite de forma mais intensa, contando com o sono da manhã de domingo. Ademais, a extensão da ausência de circulação de ônibus de determinadas linhas municipais aos sábados passou a submeter, de forma inescapável, muitos dos moradores de tais áreas a dois dias seguidos sem transporte público.

Pergunto: o prezado leitor foi consultado acerca de mudanças tão radicais, como é prática usual de administrações democráticas? Viu o tema ser debatido nos jornais e programas jornalísticos de TV, com abordagens que contrapusessem a visão que a prefeitura tem da questão com a de moradores das áreas atingidas? Leu editoriais indignados contra o autoritarismo excludente da medida?

Este observador, embora tenha dedicado algum tempo a pesquisar o tema, não se defrontou senão com notas eventuais e materinhas escondidas nos cadernos de cotidiano/cidades dos principais jornais paulistas. Ora, não estamos falando de uma questiúncula menor, mas de medidas que afetam muitos e por um longo período, constituindo fator de exclusão social e urbana.

Não que essa omissão, grave sob um ponto de vista jornalístico, chegue a causar espanto. Quem acompanha há tempos a cobertura dedicada às administrações municipais paulistanas sabe que ela obedece a uma ordem pendular, de cunho partidário: a tentativa da então petista Luiza Erundina de reformar o sistema de transporte municipal, instituindo prazos de renovação de frota e passando a cobrar por quilômetro rodado (e não mais por passageiro) foi, justa ou injustamente, exaustivamente criticada nos jornais, assim como ocorreu com a reforma viária dos chamados "corredores de ônibus" na gestão de Marta Suplicy. Já quando a cidade era governada por Mário Covas, Geraldo Alckmin, Paulo Maluf ou por seu pupilo Celso Pitta – que legou o caos no setor de transporte municipal –, o interesse dos órgãos de imprensa decaía a olhos vistos.

Adoção de um neoliberalismo caduco

A questão, aqui, não é discutir se as prefeituras petistas atuaram, em relação à questão do transportes públicos, de forma mais ou menos eficiente do que as administrações municipais situadas mais à direita do espectro político. Claro está que tal balanço é recomendável, ou mesmo necessário, em um período pré-eleitoral, na medida em que tange à escolha do voto para o próximo governador paulista. Mas o que realmente importa, no âmbito deste artigo, é assinalar as vicissitudes da imprensa paulista no que concerne à administração municipal – particularmente em relação aos transportes –, sua recusa em adotar critérios não partidários que orientem tal questão e, especificamente no caso abordado por este artigo, sua recusa em cobrir, de forma condizente, o agravamento de um problema administrativo que afeta milhões de cidadãos, professadores dos mais diversos credos políticos.

A circulação diminuta dos ônibus da maior cidade da América do Sul aos sábados e aos domingos seria negativamente notória por si só. Do modo antidemocrático e sem meios-termos como foi feita, inscreve-se como medida de cunho classista – além de anti-ecológica –, já que a locomoção por veículos automotores particulares passa a ser a principal, quando não a única, opção à disposição dos cidadãos. Quem não tem carro ou dinheiro para chamar um táxi, que passe a cultivar bolhas nos pés.

Trata-se, em última análise e em âmbito municipal, de um filme que já vimos nas esferas estaduais e federal: a adoção de um neoliberalismo caduco – pois situado na origem da grave crise econômica mundial – impondo medidas de restrição de gastos públicos que acabam por afetar os setores menos favorecidos da população.

Silêncio cúmplice

Em decorrência de tais medidas, que primam pelo autoritarismo que caracteriza a gestão Kassab, o pleno direito dos que não possuem veículo próprio de circular aos finais de semana, seja para o trabalho ou para o lazer, só se aplica aos que moram perto de estações de metrô ou de grandes avenidas. Aos demais, resta o claustro de seus bairros afastados, de suas cinzas periferias, onde as drogas e o alcoolismo se lhes oferecem como uma das poucas opções de "lazer" disponível. Desses sem-ônibus a prefeitura só quer o imposto, que aos finais de semana passou a ser distribuído ao contrário do que manda o bom senso: dos mais pobres para os mais ricos.

Assim, a ausência de oferta de transporte público aos que moram nas franjas e periferias da cidade acaba por emular, em âmbito municipal, a política de desprezo pelos direitos de locomoção dos estratos sociais de baixa renda ora praticada pelo estado de São Paulo, assegurada por cobrança de taxas exorbitantes de pedágio. Em ambos os casos, embora não haja bloqueio físico a impedir o direito constitucional de ir e vir dos cidadãos menos capitalizados, este é aviltado por barreiras econômicas direta ou indiretamente colocadas pelo estado.

E, em sua ampla maioria, a mídia, que tem como obrigação básica cobrir essa restrição semanal ao exercício da cidadania democrática, finge que não é com ela e se omite, em um silêncio cúmplice.

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Ps: A Sowetização da periferia, como diz PHA, anda a passos largos. As periferias não têm espaço de lazer e recreação - clubes, por exemplo. Mas os shoppings centers têm se instalado nessas periferias. Claro! Há uma "demanda reprimida" altamente atraente para empreendedores. O problema é que o que esses shoppings trazem, supostamente a título de lazer e recreação, só o é na medida em que se identifica lazer com consumo. Assim, aqueles que querem a periferia longe do centro, conseguem uma dupla vitória: os pretos pobre e nordestinos não vão ao centro, mas no entanto, não deixam de gastar seus salários com as mesmas redes corporativas que só fazem acumular renda e acentuar a desigualdade que empurra a periferia para onde ela está.

terça-feira, 2 de março de 2010

Defenestração


De Luís Fernando Veríssimo


Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo,devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
-Os hermeutas estão chegando!
-Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada... Os hermeutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seu enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
-Alô...
-O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água. mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado,nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
-Defenestras? A resposta seria um tapa na cara. mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravamos documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..."
Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
-Aquele é um defenestrado. Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer?Defenestrada.
Mesmo errada, era a palavra exata.
Um dia, finalmente procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela. Ato de atirar alguém ou algo pela janela! Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração? Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimindo o tempo.
-Les defenestrations. Devem ser proibidas.
-Sim, monsieur le Ministre.
-São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
-Sim, monsieur le Ministre.
-Com os prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão mutados. Os reincidentes serão presos.
Na bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreus. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
-É esta estranha vontade de atirar alguém ou algo pela janela, doutor...
-Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar - diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente e esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.
Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial do 17º andar.
- Querida...
- Mmmm?
- Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
- Fala, amor.
- Sou um defenestrador. E a noiva, na sua inocência, caminha para a cama:
- Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:
-Fui defenestrado... Alguém comenta:
-Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.

A Ofensiva do Império


Publicado em Vi o Mundo


Os fuzis da senhora Clinton
Atualizado e Publicado em 02 de março de 2010 às 13:19
02/03/2010
por Breno Altman, em Opera Mundi, via Vermelho
O giro sul-americano da secretária de Estado norte-americana é um daqueles fatos ordinários que devem ser lidos para além de sua aparente normalidade. Salvo se algo escapar do roteiro original, manterá um discurso público amigável e tratará de problemas delicados com punhos de renda. Mas nenhum observador atento deve cair na esparrela de que a senhora Clinton veio a passeio.
Afinal, a ex-senadora por Nova York joga um papel estratégico no núcleo duro da Casa Branca. Essa relevância vai além do peso relativo da pasta que dirige: na fórmula de governabilidade sobre a qual se apoia Barack Obama, o Departamento de Estado foi cedido à fração democrata mais afeita ao establishment norte-americano e seus poderosos interesses.
Hillary Clinton talvez seja a principal avalista da elite branca e imperial ao governo Obama. Sob sua batuta se agrupam, no terreno das relações internacionais, os movimentos do lobby sionista, da comunidade cubano-americana, dos consórcios que formam o complexo bélico-industrial. Sua autoridade, muitas vezes, eleva-se a de um contraponto ao próprio presidente.
Após discurso no Cairo, em junho de 2009, quando Obama anunciou uma nova era nas relações de seu país com o mundo islâmico, Hillary logo deixou claro que aquelas palavras bonitas eram letra morta. Publicamente assumiu compromissos e adotou medidas que reafirmavam o alinhamento de Washington com a política expansionista de Israel.
Os acenos de seu chefe a negociações razoáveis com o Irã, ao redor da questão nuclear, foram substituídos por escalada verbal e punitiva conduzida pela secretária de Estado. Suas atitudes soterraram esperanças de que poderia nascer uma nova política para a região. O centro de gravidade da estratégia norte-americana continuaria a ser o exercício da pressão político-militar para forçar rendição incondicional à coalizão vertebrada por Estados Unidos e Israel.
América do Sul
Também a América Latina foi cenário desse dueto desafinado entre o presidente e sua assessora. Quem se lembra do Obama generoso que prometia, na 5ª Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, um relacionamento diferente com seus vizinhos ao Sul? As promessas de diálogo e parceria foram desfeitas pelos acordos bilaterais para a instalação de bases militares na Colômbia, a manutenção do bloqueio econômico contra Cuba e o apoio mal dissimulado ao golpe de Estado em Honduras.
Desde então, a influência de Hillary, e dos interesses que representa, só fez crescer. O presidente Obama, atolado na crise econômica e no fracasso da reforma sanitária, perdeu qualquer ímpeto renovador na política internacional. Refém da maioria conservadora de seu próprio partido, na prática delegou à ex-primeira dama o comando da política externa de seu governo.
Pois é nessa condição, de delegada plenipotenciária, que Hillary organizou seu primeiro périplo sul-americano. Vem com algum cuidado, para sentir o pulso da região e diagnosticar possibilidades. Não traz na bolsa projetos acabados, ainda que seu marido tenha sido o principal mentor da falecida ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). Mas tem um firme propósito: desbravar novos caminhos de hegemonia em uma região na qual os Estados Unidos perderam muito espaço nos últimos dez anos.
O período republicano foi ironicamente positivo para as forças progressistas latino-americanas. A política imperialista comandada por George W. Bush, cujo momento simbólico foi o apoio ao golpe cívico-militar na Venezuela em 2002, teve efeito tóxico sobre o compadrio das elites locais com a grande potência ao norte. Acabou por incentivar uma nova onda nacionalista no continente, um dos afluentes que levaram a importantes vitórias eleitorais dos partidos de esquerda.
A existência de governos progressistas, contudo, não é o único ingrediente constrangedor para a Casa Branca. O avanço na integração regional, por exemplo, culminada com a proposta de criação de uma comunidade latino-americana sem a participação dos Estados Unidos, não faz a felicidade da turma de Washington. Muito menos a emergência de nações, a exemplo do Brasil, que desafia interesses norte-americanos em outras regiões do planeta, como se passa com a questão iraniana.
Estados Unidos: poderosos, mas enfermos
A senhora Clinton, nessas circunstâncias, está assumindo a tarefa de tentar mudar uma realidade que lhes é desfavorável, de organizar uma contra-ofensiva que possa dividir e derrotar o bloco progressista. Como fazer isso, no entanto, são outros quinhentos. Os Estados Unidos são ainda um país muito poderoso, sob qualquer ponto de vista, mas enfermo.
Aparentemente o alforje da secretária de Estado traz bondades e maldades. Seus gestos associam propostas bilaterais de assistência econômico-social com ameaças desiguais e combinadas contra governos que auspiciam escapar à área de hegemonia norte-americana. Os objetivos aparentes: fortalecer os países aliados (especialmente Peru, Colômbia e Chile), neutralizar as nações mais frágeis, isolar o arco bolivariano comandado pela Venezuela e obrigar o Brasil a negociações em separado e pautadas principalmente pelos interesses de seus grupos empresariais.
Não se trata, parece evidente, apenas de uma estratégia comercial e financeira. Os Estados Unidos estão relançando sua capacidade de ação militar e de inteligência no continente. O Departamento de Estado também trata de reativar seus laços com grupos políticos e econômicos nacionais, bastante enfraquecidos na era Bush, em um esforço para construir alianças que possam se contrapor ao avanço das correntes de esquerda e nacionalistas.
A verdade é que o giro progressista no continente, depois da derrota dos golpistas venezuelanos em 2002, pode se desenvolver em um cenário de recuo da presença norte-americana. A viagem da senhora Clinton, no entanto, eventualmente significa uma aposta na reversão desse quadro. Se assim for, os governos populares terão que se mover em um terreno de crescentes conflitos e tensões, no qual a aceleração e a radicalização da unidade regional serão indispensáveis para a continuidade do curso aberto com a eleição dos presidentes Hugo Chávez e Lula.
*Breno Altman é jornalista e diretor editorial do Opera Mundi
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Ps: (1) Alguém duvida de que o golpe em Honduras foi só um ensaio???
(2) O que acontece se o Serra ganhar as eleições???
(3) O que aconteceria se estivéssemos ainda devendo ao FMI???
(4) E o SIVAM??? E as "ONGs" na Amazônia???
Essa é a nova Dama de Ferro, e ao mesmo tempo, o "poder executivo" do Lord Clinton-Sith.