sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Relíquia em tempos neoliberais

O filme Aquarius é também um filme sobre relíquias.

Ele trata de feminismo, de gentrificação, de luta de classes, de liberdade sexual, de jogos de poder, de violência estrutural, de teologia empreendedora.

Mas chama a atenção o lugar de discussão sobre a dissolução do suporte material de símbolos, que está presente a todo momento no lugar maior em que a trama se desenvolve. Clara não defende apenas um imóvel; ela defende a materialidade de sua história pessoal, representada pelos objetos que tem ao seu redor.

Ela é consciente disso quando fala de seus discos. Ela confere a cada um deles, embora sendo frutos de um processo industrial que lhes tira de saída a possibilidade de serem únicos, uma singularidade que é justamente o que significa uma relíquia.

E o que faz de um objeto qualquer uma relíquia não é senão obra das vicissitudes da vida, dos acasos que não são tornados significativos salvo se por um processo de conciliação de causalidades independentes que são vistas como associadas não em outro lugar que na nossa emocionalidade, esta que tem suas demandas por um mundo objetivo governado por alguma grande ordem/lógica/organização, por um significante mestre que se pretende autodeterminante, uma espécie de garantidor de que as coisas fazem sentido apesar de nós mesmos. Datas de compra associam-se a datas de assassinatos; daí associam-se a uma postura frente à tecnologia de mídias digitais e dão corpo a uma personagem que não se apega, meramente, às velharias que a rodeiam, mas sim de alguém que preenche seu espaço cotidiano com a vida que fez e com o que construiu de sentido para si. (inclusive no que há aí de naturalização de uma relação de exploração classista)

A relíquia tem histórias profundas e complexas - uma vida sem relíquias tende a ser mais superficial historicamente; mais rasa. Há um empoderamento feminino de gerações na casa, materializado no móvel da tia de clara, e implicitamente fortalecido pela simples existência do tal móvel. Há um piano de gerações, que não é qualquer piano, adquirido num catálogo de ikea para músicos. (O que é um instrumento musical sem história?)

O assédio pela venda de seu apartamento, a loucura que lhe é imputada - uma loucura quixotesca - atinge a mulher, a cidadã, enfim, a pessoa de direitos. Mas atinge também um outro lugar profundo da subjetividade, que é o da memória. Atinge os suportes próprios da subjetividade de Clara, de sua história pessoal corporificada em suas relíquias.

É como se mesmo para seus filhos, que são também insubstituíveis como o são as relíquias, o mundo de Clara não pudesse ser mais compreendido. É portanto como se mesmo as relíquias resistissem a sê-lo, para em vez disso caírem no anonimato dos objetos fabris. Clara resiste ao delir de sua individualidade por sob o peso esmagador e pela astúcia indigna dos especuladores - que não são senão aqueles para quem tudo tem valor de troca e não mais do que isso. São eles nada além do ethos do neoliberal - sujeito desligado emocionalmente, incapaz de empatia, desenraizado do mundo, atomizado socialmente, para quem, segundo axioma de um de seus ideólogos, a história nada importa para a compreensão das relações concretas no mundo.

Clara luta por um mundo de símbolos. De objetos insubstituíveis que são ela mesma. É a possibilidade da subjetividade num mundo de comodities que está em questão.

E o que são as pessoas sem seus símbolos? 

sábado, 9 de março de 2013

O que é um feriado???


Todos os feriados - dias comemorativos de acontecimentos históricos supostamente constituintes de nossa história e de nossa identidade cultural - por acaso se converteram em datas para consumo de itens específicos? 



Digo isso pois não foram poucas as postagens no dia das mulheres (muitas delas feitas por mulheres. . .) felizes por ganharem maquiagem, sapatos ou coisa que o valha. . . 

E o sentido histórico da luta pela igualdade de direitos e pelo fim da opressão??? - não deve ser bom para os negócios! . . 

Na primeira vez farsa; na segunda, tragédia; depois da terceira, oportunidade de negócios. 

Se fizerem um dia comemorativo ao socialismo, certa e fatalmente ele se converterá num dia para comprar e presentear alguém com camisetas do Che Guevara. . .

sábado, 2 de março de 2013

Da divisão igualitária da estupidez humana

Na abertura do Discurso do Método, Descartes faz uma das afirmações mais irônicas de sua obra - prova de que algum bom humor passava pela mente do árido defensor da racionalidade matemática. (Não sei se cabe explicar a ironia. . . isso seria pressupor pouco de você, caro leitor, além de dar a mim a ingrata tarefa de explicador de piadas, que rivaliza fortemente com tudo que há de mais desagradável na convivência social. . .)

A afirmação é a seguinte:

"Não se encontra no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem."


Pois bem. Ainda que irônica - talvez sarcástica -, a afirmação de Descartes parece se encaixar bem na descrição da autoafirmação de cada um de nós. 

O problema está na contraparte de sua declaração. Em termos lógicos, poder-se-ia dizer que trata-se de uma condição necessária, mas não suficiente, para a compreensão dos juízos de valor dos indivíduos sobre o mundo.

A contraparte da qual eu falo é a que se opõe à afirmação de si: qual seja, a afirmação do outro. 

Em letra de forma: enquanto todos se afirmam dotados suficientemente de bom senso, creditam aos outros sempre o seu oposto: a estupidez - às vezes somente a grupos determinados, mediante uma prévia categorização que não é muito mais do que arbitrária e semi-erudita.